sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Do Coração da Terra.

"Loucos ou sábios, como o saberemos? Consolávamos o inquieto coração pousando os olhos na linha imaginária do horizonte, e vivíamos."

                                                                     in Uma Pescaria (conto), Agustina Bessa Luís

O toque é estranho aos que por debaixo dos panos, das vergonhas e pudores diários, trabalham a Terra. São elemento quente, apontamento suave no solo frio e duro que se rompe dia após dia para dele retirar vida e sustento. Estremece-se o corpo, aos dedos que deslizam discretamente por um braço, que por sua vez mal os sente fisicamente, tal é a profusão de camadas com que se cobre. 

Mas o coração, oh esse sim, tem terminais nervosos muito mais sensíveis que os da epiderme. O vento morno de um murmúrio soprado numa nuca, ali bem a rasar a linha onde termina o nó do lenço ou o roçagar leve de um joelho noutro em dois corpos sentados em cadeiras à beira do lume e que mal se podem olhar. São toques, pormenores que não se podem perceber senão com um sentido que não é o sexto ou sequer o último, mas o primeiro de todos.

O sentido das coisas em que tudo encaixa, se ajeita, se compreende sem a necessidade supérflua de palavras, sons, diálogo nenhum ou entendimento racional de qualquer espécie. O coração dos que se tocam sem precisar de o fazer, não tem limites humanos ou naturais. Vive muito para além das fronteiras desta Terra: galga os cursos de água, pisa os poejos e a hortelã-da-ribeira deixando o rasto e o cheiro da memória no ar pelo caminho; voa por cima dos telhados de telha marselha; bate asas acima do branco dos rostos das casas e chega exactamente onde tem de chegar, no momento exacto para que o outro coração que o espera, saiba que o caminho é menos que nada, obstáculo ridículo entre um e o outro.

A pele de dois corações que se fazem corpo tem rastilho, pavio curto. Incendeia-se constantemente ao toque, à presença apenas- real ou imaginada- da sua metade fundamental. Nos bailes de Verão, sobre o chão escuro de tacos da Sociedade Recreativa ou na terra batida do largo, enfeitado de luzes foscas, em tom amarelado, ao som de uma qualquer moda argentina, que poucos parecem realmente escutar, sobressaem não raro, um par de pés que não tem duas vontades. É desses que falo. Os corpos agarrados, viajam muito acima de qualquer som, de todos os elementos físicos na Terra: eles já se encontraram num qualquer plano divino em que viveram muito antes dos seus pés se encontrarem num fim de tarde em Agosto.

E quando a tela dos corações se cose, reúne, fica una de novo, então não há maneira de o ignorar, de lhe voltar as costas humanas. Na Terra chamam-lhe bem querer, ou só querer. Tanto, tanto que em breve os homens terão de erigir a casa, as mulheres terão de cortar e coser os tecidos que servirão de abrigo para guardar este coração novo, reunificado, esplendoroso, que vai viver num tão simples corredor da Terra.

Porque dizem os antigos, que o Amor é simples e que é só assim que ele vive. E que dá testemunho. E que toca sem tocar os que a ele acorrem e que por ele vivem.



sábado, 13 de junho de 2015

Mães e filhas num fio de Terra

  "What if I fall?
   Oh, but my darling, what if you fly?"

                                Erin Hanson

  As mães e as filhas estão cosidas umas às outras, num lugar nunca visto, muito imaginado mas frequentemente sentido entre batidas do coração. E definitivamente real, absolutamente indicável, passível de ser provado e apontado até por duas manitas de uma filha em crescimento ou em sorvos profundos do corpo da sua mãe.

  Há uma cola universal que nasce com a mãe, não quando ela nasce, mas quando nasce como mãe, que faz a sua função de unir, unificar, um e outro coração: uma mãe e a sua filha. A esta ponte que não chega a sê-lo pois não há duas margens mas apenas um rio grande, furioso de emoções, acrescentam-se as horas em que duas foram sempre uma, os dias a sucederem-se aos dias numa infinita partilha, numa fome nunca acalmada de precisar de se ser só uma quando os corpos são dois.

  A Terra cresce com as filhas e molda as mães. Sabe quem elas são muito antes de elas o serem. Estende-lhes o chão debaixo dos pés para que ande uma e logo a outra, sob o sol quente, num caminho que e só delas. A mãe e a filha parem-se uma à outra em choros e em dor: o choro de se querer tanto esta vida nova para sempre a duas, a dor de saber já que terão de viver tantas outras dores sem que a mão amada possa lá estar constantemente a amparar, a mimar, a cuidar.

  Dão-se os primeiros passos, pouco firmes é certo, neste universo novo e o mundo desalavanca as suas estruturas para voltar a girar uma e outra vez. Os dedos perfumados de sabão azul, de terra fresca, de coentros e poejos que são os da mãe, pousam suavemente sobre os das filhas para paulatinamente, a irem ensinando o jeito certo para amassar um pão, para alimentar as galinhas, para cerzir umas calças, para temperar um caldo ou varrer as lajes da cozinha.

  Mais ainda, a menina pequena, mulher em construção, aprende sem palavras, a tomar conta do corpo, a sarar as suas feridas, a chorar as suas tristezas, a benzer os de casa. Meneia-se ao som de um acordeão nos primeiros bailes tal como viu a mãe fazer às escondidas num dos quartos, enquanto achou que ninguém a viu porque bailes não são já para ela, que os gozem as raparigas solteiras.

  Crescem as meninas e às suas mães crescem os cuidados. Saem-lhes do colo ainda de cueiros e fraldas de pano e voltam em vestidos de noiva, num qualquer Sábado ou Domingo escondido numa dobra do tempo, inacessível a qualquer mãe.

  As mães choram as mágoas das filhas porque são as suas, duas vezes. Sai-lhes do peito o coração logo que as vêem dar os primeiros tropeços nas ruas de terra batida, para depois nunca mais o poder voltar a guardar, porque tudo é um cuidado, uma dor para a mãe impotente que só pode deixar que a menina nasça mulher.

  Há no entanto, latente entre elas não importa a distância na Terra ou fora dela, um fio que não se quebra. Permanece na filha uma sensação de que mais tarde ou mais cedo se transformará na sua mãe, que serão uma finalmente, no dia em que ela souber o que é a maternidade e começar tudo de novo.

  Por isso um colo é um espaço infinito e não cessam os abraços em redor do pescoço. Mudam-se os motivos, as idades, os dias passam e com eles os céus roxos e laranjas das planícies, mas uma mãe quando nasce é para sempre. Uma filha é bem mais do que uma pessoa a quem pariu: é a possibilidade sim, de ser-se de novo, uma vez após outra, de cumprir-se e concretizar-se em todas as mulheres da Terra.


Pierre Gonnord@ in http://charivari.pt/2015/03/12/a-nobreza-da-comunidade-cigana-do-alentejo-em-serie-fotografica/






sábado, 18 de abril de 2015

Joaquina da Terra

  A Joaquina é um bicho-da-conta. Toda enroladinha, os queixos a baterem no peito, as costas curvadas numa curva perfeita, tão redondinha a Joaquina que se não fossem os solavancos de uma perna com que manca ligeiramente, aventurando-se pelas ruas não calcetadas da Terra, quase se podia dizer que ia ali a passar uma lua cheia vestida de luto.

  Os gaiatos fogem da Joaquina. Mal a vêem vir dos fundos da aldeia, do terreiro seco ao pé do poço da estrada, mesmo ao rés da escola primária, até batem com os calcanhares no cu, correndo, correndo, bradando aos outros que vão vendo pelo caminho: "Foge, foge que aí vem a Jaquinita, a bruxa da cara bonita!"

  É que essa é que é a verdade: o raio da velha tem uma cara limpa e sadia, uma testa quase lisa, ornamentada com uns olhos azuis de água, de criança. Seguramente não de velha. Dizem os gaiatos que ela os roubou a uma princesa moura que passeava numa mula a colher estevas para se enfeitar e ficou com eles para ela atirando a princesa e a mula para dentro do poço ao pé da sua casa. Não há nada que os gaiatos não inventem na ânsia de explicarem o inexplicável através de cabecitas tão pequenas que ainda estão no tempo em que os animais falam e as fadas passeiam nos quintais.

  Pois a Joaquina lá vai, de manhã tão cedo que nem bem luz há. Atravessa a aldeia pelo lado das hortas. Não quer ver ninguém senão a sombra dos pastores ao fundo ou o vestígio de cor apagada de uma bata de trazer por casa de uma ou outra mulher mais madrugadora que tenha saído rapidamente para ver a cor do dia. Segue pelos frajais, rente aos muros quando os há e lá se vai arrastando como pode, vencendo a pé a língua de terreno, pedras e torrões que liga a aldeia ao cemitério. 

  Lá chegada, pára e encosta a palma da mão ao portão. Hesita sempre um ou dois segundos, imbuída do espírito de santuário que parece emanar dos contornos de ferro e ferrugem daquele portal para o outro lado da vida. Ao passá-lo, dirige-se sempre ao mesmo local, agacha-se e ajoelha-se com tanta dificuldade que quase se ouve o ranger dos ossos e das vértebras a dobrarem-se, a atingirem o solo.

  A cabeça descai ainda mais para o peito. A mulher transforma-se num vulto escuro e é difícil distinguir-lhe por baixo do lenço, vestido, meias, xaile, tudo negro, os limites do seu corpo humano. É antes uma mulher-embrião, morta em vida, em oração profunda, estática como o márnore das campas à sua frente.

  Só que dentro deste casulo de mulher há um mundo de imagens, de sons, de cores, de coisas vividas num tempo que já não há. Vê-se a si mesma, a Joaquina pequena, pequenina, filha única e adorada nos braços quentes da sua mãe, a Ti Bárbara. Ouve nos seus ouvidos já moucos as cantigas que a voz materna enchia de mel:


                                        Sossega agora minha Joaquina
                                        Faz na mãe o teu soninho
                                        Meu doce, minha menina
                                        Cheiro de cravos e rosmaninho.

  Sente o embalo dos braços da mãe nos seus. Nem sabe quando foi que saíu deles para embalar ela mesma o berço do seu menino. Traz ainda nos seios o calor do hálito do filho, sente-lhe a forma da boca encostada contra o seu peito. Aperta o seu corpinho despido de encontro ao seu, sente-lhe o odor universal de bebé, de menino da sua mãe. Na sua cabeça sussurra-lhe palavras meigas, cantigas, histórias, orações, bençãos. Cura-lhe todas as dores com um sopro leve na nuca, com o sinal da cruz na testa. 

  É mãe sozinha, o pai nunca esteve. As comadres da Terra diziam à boca fechada que fugiu enfeitiçado por uma da Aldeia Nova, que andava arranjada com uma virtuosa. "Que fosse!" disse a Joaquina. O mundo todo estava na Terra, nos olhos do seu menino.

  Só que o vento que embalava o berço, que seca os lençóis no varal, que nos empurra para que andemos, também sopra de atravesso, vira as cabeças, consome os homens, os meninos.
  Nos olhos de água da Joaquina refulgem os raios impossíveis do sol que brilhava intenso, devastador, no telhado da casa, sobre a chaminé branca de onde pendia a corda, de onde se via o seu menino pendurado pelo pescocito. Nem homem era, nem dera tempo de o ser o maldito vento!

  Nesse dia encurvou-se a Joaquina. Não mais olhou para cima. Poucos podem dizer, depois desse dia, que lhe viram a água dos olhos ou o rosto limpo. Enrolou-se, desprendendo-se dos ossos, caíu sobre o chão e deixou-se estar.

  Vai e vem como um pêndulo, antes que o dia seja dia, todos os dias (do resto) da sua vida na Terra até ao jardim sombrio e ventoso onde repousa agora o seu menino. Volta antes que dêm por ela. Os gaiatos já estão dentro da sala de aula, poucos notam a sua passagem. Silenciosa como a madrugada, sozinha como a vastidão da planície que a fez, segue pela estrada. Arrasta a perna, avança, força-se a andar para a frente. Porque na Terra não há caminho senão esse.


Imagem: http://paula-travelho.blogs.sapo.pt/2008/12/



quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Meninos da Terra

Ao Miguel: pela honra que é ver um homem a nascer de um menino.
                                                                               

  Os donos da Terra não são os senhores dos montes, dos campos a perder de vista, delimitados aqui e ali pelos muros de pedra levantada do solo. Quem manda por estes lados não é o senhor do solar no centro da vila ali a dois passos, pois não.
Este chão é pertença dos verdadeiros reis da Terra: os meninos-homens que ganharam as ruas, os bandos de rapazes que as percorrem de fio a pavio desde que o dia é dia até que a noite se esgueire por debaixo da Terra. Eles aí vão: o Inácio, o Joaquim, o Zé Miguel, o Galito, o Petanca, o Papa-bichos, o Corre-mundos...


  Invadem a aldeia com a sua algazarra, cortam as esquinas com seus aros e varas, bolas de pano, corridas de pneus, jogos de guerra. São homens pequenos e muitos deles já trabalham, outros estão a começar a deitar corpo, a sonhar acordados.
Ouviram as primeiras letras e já sabem fazer versos, rimas de namorados. Calçam botas, vestem coletes esterlicadinhos para irem em grupo, aos bailes da sociedade. Põem-se à porta da padaria, a morder palhinhas, a cheirar o ar quente, de moedas contadas, à espera que a porta abra para serem os primeiros a ferrar o dente num bolo folhado, num olhinho de mel.

  Há um que é filho do mestre da música, é o Panças: anda a aprender o acordeão. Parece um homem do alto dos seus doze anos.  Os outros acompanham-no com vozes a tremerem entre a idade que têm e a que querem ter. Carregam a lenha às mães, fazem mandados na venda para as avós, assobiam orgulhosos de machadinha nas mãos enquanto aprendem a podar videiras, a enxertar oliveiras, a matar um porco e tudo o mais que os pais lhes possam ensinar, que dois braços em casa querem-se é para trabalhar.

  Mas os meninos de pele morena, cabelos fartos, olhos de azeitona bical e buço tímido querem antes os braços para saltar ao alho, para puxar a fisga com força e atirar aos pássaros. Fazem-se fortes, a correr pelos campos infinitos, pelos horizontes profundos, tão longínquos que os fazem crer que eles próprios são invencíveis. Como o ar que respiram, como o sol que lhes cobre as cabeças, os chapéus de abas ou os bonés de feltro.

  Fazem lutas corpo a corpo,entesam os músculos  joelhos esgravatados, narizes a sangrar, as pastas da escola a voarem por todo o lado, para num assobio, darem tudo por acabado e lançarem-se à água, nus em pêlo, numa irmandade indizível de crianças a fazerem-se adultos com a mesma vontade, a mesma gana de viver, o mesmo ímpeto com que as águas da ribeira galgam as margens e alagam a Terra durante as chuvadas.

  No avesso de um menino vive já o pai dos seus filhos, o marido da sua mulher, latejam já as pernas que hão-de caminhar sobre a Terra dia após dia num vagar reconfortante de quem cumpre a sua jorna, de quem sabe que encaixa. De quem dá e recebe vida.

  E são os gaiatos correndo pelos caminhos, calcando bem o chão que os acolhe quem dá à Terra o seu sustento, fazendo dela a casa de outros mais que hão-de vir. Para que não se perca nunca a infância dos homens.