segunda-feira, 23 de julho de 2018

Antónia e os seus meninos

  A Antónia queria muito aos seus meninos. Criava-os a mel e sopas de leite. Fazia rendinhas para rematar as golas e as bainhas dos vestidos das meninas, passava goma nas camisas que os meninos haveriam de usar na missa ao domingo.
Antes de dormirem, preparava água morna para lhes lavar os pézinhos delicados, os dedos gordinhos, punha-lhes pó de talco nas preguinhas do pescoço e das pernas. Cheirava-os, penteava-lhes os cabelos. Cem escovadelas pelo menos em cada uma das meninas. Uma trança grande a pender das costas de cada uma delas. 

  Os lençóis estavam brancos, imaculados, corados ao sol da Terra. O da manhã apenas porque o do meio dia fazia-lhes manchas amarelas e isso seria impensável. 
Engraxava os botins, encerava-lhes os atacadores para que fizessem um laço direito. Costurava, cerzia, calções, vestidos, camisas, lencinhos com as iniciais de cada um. Entre as dobras da roupa nas gavetas, colocava raminhos de alfazema nas das meninas e de rosmaninho no dos meninos. Não os deixava ir para a escola sem verificar bem o comprimento e a higiene das unhas , o asseio da roupa, o brilho dos sapatos: era o que mais faltaria, os seus meninos em desalinho! O falatório que não seria!

  Subia cedo antes do romper do dia às courelas do monte para ir buscar o leite mais fresco ou um queijinho atabafado, envolto em mil cuidados, para o pequeno almoço.
Se lhes subia alguma febre, já não dormia a Antónia. Noites a fio de olhos esbugalhados pousados no sono ardente do seu menino ou na testa em chamas da sua menina.
Ninguém na Terra os via pela hora da calma. Queriam-se branquinhos e sem mancha os seus meninos. Segurava-os pela mão até que aprendessem os primeiros passinhos, carregava-os ao colo para que não os incomodassem as terras barrentas, os cascalhinhos da estrada, as caganitas de ovelha.
Benzia-os à lua, mandava rezar novenas quando os via aflitos.

  Fez-se velha a Antónia, mais velha que a Terra toda, que o círculo longínquo das planícies e dos olivais ao longe, na espera constante pelo regresso de alguns dos seus meninos.
Foram indo para a cidade uns, para o estrangeiro outros e a Antónia ficou, segurando as paredes do monte, mandando caiar, podar, amanhar tudo todos os anos não fosse algum dos meninos entrar-lhe pela porta dentro de surpresa, matar-lhe as saudades que a matavam.

  Não a puderam salvar os seus próprios filhos. Eram para lá de meia dúzia, criados a fome e a ausência pela avó, uma comadre ou uma vizinha. Batiam-se nus e descalços pelas côdeas dos bolos na Travessa do Forno, traseiras da padaria. Morreram dois de barriga inchada de ar ou de maleita a que não procurou dar nome.
Escola se a conheceram alguns foi pela mão da Mestra que os atraía com a promessa de um naco de pão e uma malgazinha de leite.

  Também eles se foram, um após o outro: casaram, fizeram outros meninos que juraram, iriam ter mais sorte do que eles, filhos esquecidos de uma mãe que não usava o título entre a sua gente. 
No dia em que a encontrou o Zé da Inácia que por sua ordem, ia ao monte de duas em duas semanas para cuidar da horta e dos jardins, mandou que se avisasse uma filha, a mais novinha que por ali ficou por se ter casado com o viúvo dono da mercearia (promessa de sustento?).

  Logo a notícia se espalhou como um rastilho pelo sangue dos da Antónia. Vieram sem rendas, golas engomadas ou sapatos engraxados. Vinham sem saber bem a que vinham ou quem iam encontrar naquela caixa de madeira comprida que colocaram no centro da casa que lhes diziam ser a sua. Mas não conhece casa quem não encontrou o calor no colo da sua mãe.

  Dos seus meninos bonitos, todos engenheiros, doutores, bem casadas, gente graúda da Terra mas há tanto fora dela, nem o vento ouviu falar. "Finou-se a criada, Deus a tenha!" disse a matrona, lá longe numa cadeira perto do mar.
Os filhos esses, choraram de rijo, fizeram exéquias, assumiram um luto negro fechado como se deve a um parente. 

  Pois na Terra o sangue é como um ribeiro no seu caminho: salta obstáculos e desvia-se muitas vezes, mas acaba sempre por juntar-se ao leito. 
in https://www.facebook.com/RicardoZambujoFotografia/

segunda-feira, 5 de março de 2018

Sentar na Terra


 "Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo

E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado (...)"

                             Chico Buarque, Construção

 Sentar na Terra é acomodar o corpo para as longas esperas, os calores infinitos, a lentidão dos ponteiros e o rumor do silêncio que invade a gente.

  Há um banquinho corrido, bom para sentar, colocado gentilmente sob a frágil parreira diante da casa. Pode ser uma cadeira, esta foi o tio Domingos Marceneiro quem a fez, o Inácio Cesteiro quem lhe fez dançar, entrecruzar, as tranças de palhinhas do assento para formarem uma rendinha apertada, quase uma mantilha como a que as moças levam pelas cabeças às missas no Domingo.

  Parou esta cadeira à pouca sombra da ombreira da porta da casa, logo abaixo da lista azul da pequenina janela da frente, buinho claro no assento, costas brancas a casar com a alvura da parede que lhe dá encosto. Os quatro pés a sustentarem um corpo robusto que segurou à vez avós, filhos,  netos, choros de amor e de dias fúnebres. Que estalou do sol a querer penetrar-lhe as frechas e da chuva a inchá-la como às laranjas, azeitonas, bagos de uva.

  Está viva a cadeira, como há vida na casa que a pariu, assente no chão da Terra que é um círculo onde se vive, se cresce, se morre e a intervalos se descansa. Cadeira onde deitei a cabeça no colo da minha madrinha quando já não pude suportar os laços apertados do vestido que me cingia a cintura no dia da minha confirmação; cadeira aonde subi para chegar ao ninho de andorinha entalado entre as telhas, um tosco punho fechado de barro de onde caíram três filhotes que de outro modo não voltariam para lá; cadeira de onde vi chegar tantas e tantas vezes o carteiro com as cartas escritas, sobrescritos pesados das saudades da Terra pelos de cá que tiveram de calcorrear o globo em busca de um dia voltar; cadeira onde sentada junto da Avó, aprendi o primeiro ponto, a primeira laçada da malha; onde descansei vinda de um qualquer baile numa qualquer juventude, infância, que merecem elas próprias assento cativo na memória dos dias; a cadeira onde namorei, chorei, sorri, ri sem parar, vivi...

  Uma cadeira que me deixou ser e que vive junto à casa, sendo dela mas ainda mais.
Dando aos da Terra a certeza calma, serena de que sejam quais forem as passadas, o dia, a duração da jorna, ela aí está, firme, eterna, quatro pernas e um assento onde o corpo repousará.
Crescerá.
Será Terra.

in https://goo.gl/images/Di23k1credit: arturpastor





quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Chove Terra

"Hello darkness, my old friend
I've come to talk with you again
Because a vision softly creeping
Left its seeds while I was sleeping
And the vision that was planted in my brain
Still remains within the sound of silence"
                                      
                                 Simon & Garfunkel, The Sound of Silence



Chove de rijo na terra. Chicotes de água açoitam as margens das ribeiras, os açudes ressequidos pelo abraço de brasa, opressivo do sol. Saltam, salpicam gomos cheios de água prenhes de arco-íris, espelhos transparentes do céu que os mandou.Vêm redondos, perfeitos como olhos de perdizes a invadir a planície e esparramam-se desenvergonhada e desordeiramente pelas fendas no solo, chegando ao seu fundo numa fusão infinita, cega e fundamental. 

  A Terra conhece água. Os que não são dela, dizem que não é assim. Não é verdade. Terra é água e dela vive. Em torno dela, isto é. 
Falta, abunda. Tira, dá. Destrói, cria. Com água se inundam os olhos de todas as Mães da Terra quando o peito se abre em sulcos como os do chão que pisam. Água é o que corre pela testa, por debaixo das boinas, lenços, de todos os Homens que não conhecem estações ou dias de cores diferentes. Água para parir, água para lavar, água para ungir, benzer, inundar de vida e de sagrado (e não é isto falar do mesmo?). 

  Água nas cantarinhas a saber a barro, tão fresca, tão renovada que se diria estar o dito utensílio em lugar de fonte jorrando água constante do centro da Terra. Água em baldes de lata atirados ao ar, desenhando curvas liquidas em redor das soleiras das portas que depois se esfregam com panos, vassouras até que brilhem muito mais que os astros e as entradas das vizinhas. Água para nadar, como se veio ao mundo, sentindo os barbos, bogas, achegãs roçarem as pernas, e os pés escorregando nas pedras musgosas a fazerem leito. 

  Chove com força, como um látego pesado no dorso da Terra. É tudo ou nada deste lado do rio. Este Sul que é mais sentido do que geográfico tem os extremos de um território inóspito mas apetecível; os desvelos de uma mãe carinhosa com mãos rugosas, ásperas mas com perfume de leite e mel, um toque de hortelã e poejo. Sul que sente ainda o cheiro do oceano e que se diz plano mesmo do seu ponto mais alto. Que deixa vir água do céu e a recebe como a um deus descido do Olimpo dignando-se a caminhar na Terra. 

  Só que quando chove neste Sul, é de verdade. Com uma intensidade, uma ânsia desconhecida noutras paragens. Uma vontade imensa de absorver a água toda que se não vier carregada, gorda, pesada, depressa desaparece na imensidão, nos vastos caminhos de terra da Terra.

  Lava-te pois Terra, faz lama nas ruas ladeadas de paredes brancas caiadas, abre as bocas dos ribeiros que as circundam e faz-lhes salpicos só de pirraça. Obriga as moças a calçarem as botas de borracha para irem à venda ou à missa, os rapazes a abrigarem-se no telheiro da escola ou os velhos a recolherem ao lar, por dentro do útero da cozinha de onde parecem jamais querer sair. Faz-te nova, avança. Lavra o teu chão e prepara-te para lançar as tuas sementes. Mais tarde as mandarás com beijos das abelhas nas flores, pelos bicos dos pássaros celestes a Terras fora de ti. 

  Sabes que é assim que se recomeça. Que se renasce. Água e Terra fazendo Vida. 


in: https://nit.pt/out-of-town/back-in-town/dark-sky-chuva-estrelas-alqueva
Créditos: http://www.miguelclaro.com/wp/ 

domingo, 6 de agosto de 2017

Laura e o Amor na Terra

      Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... 
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é. 
Mas porque a amo, e amo-a por isso, 
Porque quem ama nunca sabe o que ama 
Nem por que ama, nem o que é amar...
Alberto Caeiro
  Às vezes Laura acordava com a sensação estranha e maravilhosa de que a manhã nascera para ela. Que, rebentando as frinchas das janelas, os intervalos do postigo e as dobras dos cortinados de renda vinha ansiosa, lamber-lhe o rosto, a manhã. "Sou tua" parecia dizer-lhe. "Toma-me e expande-me, transforma-me em dia claro, em invólucro da Terra."
Laura voltava a fechar os olhos e deixava-se usufruir um pouco mais, só um tudo ou nada, da languidez boa de se sentir amada, tocada de novo pela luz conhecida e perfeita da manhã.

  Janela aberta, portas em abraços para fora, Laura sorvia com cada poro, cada tira de pele o ar da manhã na terra. Que cheira a urze. A palha seca. A estrume. A dentes de leão e alfazemas. Cheira a roupa batida nas pedras da ribeira e a corar ao sol dos quintais. Cheira à canela e ao mel que se derretem por dentro dos bolos no forno de pedra na padaria.

  Cheira também a barro, namoro da terra com a água da chuva. E tem sabor. Sabor da poeira que se eleva dos caminhos, do ar metálico antes de soar o primeiro trovão ou dos restos de cinzas brancas do lar que se levantam e povoam os corpos, as línguas, fazendo lembrar que um dia, já foram brasa.

  Sentia Laura que a manhã lhe falava. Que lhe contava dos que foram e dos que estavam para chegar. De quem seriam os reis do baile da sociedade esse ano e da chegada do míldio à vinha do Monte Novo. Dos dias que se seguiriam e se mostravam inteiros aos olhos e aos ouvidos atentos de Laura que tantos já diziam ser virtuosa.
Sem compromissos reais com a Terra, Laura assumira no entanto uma ligação eterna, matrimónio indestrutível com o ar da manhã. Desde gaiata que ao levantar,punha um dedito no ar, fechava os olhos e tentava adivinhar a direcção do ar da manhã, o lado de onde viriam as novidades, o seguimento do dia pelo que conseguia ver primeiro dele com os olhos do coração.

  Ah o peito, o peito! Pudesse Laura expandir-se como os caminhos da Terra, lonjuras inexequíveis para os que sobre ela não caminham, seria pelo peito que a sua estrada começaria. Para Laura tudo era novo ou regenerado como os dias.No peito de Laura vivia Amor como vivia a luz da manhã, o ar fresco do orvalho e os tons dourados, roxos, vermelhos com que o seu mundo se erguia. Começar de novo. Ser nova todos os dias e os dias todos. 

  Acorriam a Laura todos os que de uma forma ou outra já tinham desistido. Ou de quem já todos haviam desistido. Começar, recomeçar. Tombar, levantar. Pedras, rochas, solos rugosos e secos a fazerem-se terra fértil, veios de vida com um nadinha de manhã sobre eles. Era tudo quanto bastava. E era o ar da manhã que os curava, dizia Laura. Ela própria um episódio confuso do Tempo que não sabia mais modo nenhum de lhe chegar, de a prostrar.

  Laura dava. E do dar, recebia e era abundante como a primavera e o sol da manhã. Também caía chuva. Muitas e muitas vezes colava-se o avental de Laura ao seu corpo perfeito, glorificando as suas formas, e ela sorria, satisfeita, dando graças pelo choro Divino que lhe permitia lavar, semear, colher, crescer, ser mais Laura. Outra vez começar, com as manhãs. Ser luz com elas. 

  Quarenta ciclos de doze meses de manhãs novas, mãos dadas, esperança orgulhosamente pendurada ao peito, morreram numa noite cerrada de um Inverno gelado. Não havia  estrelas, a lua escondera-se sob o nevoeiro cerrado e o corpo perfeito de Laura, cobrindo o espaço da cama, parecia ter o peito mais largo, os ombros expandidos, os ossos alargados, as narinas desesperadamente abertas. 

  Choraram por Laura na terra. Sabiam que a sua manhã não chegara e que nenhuma mais teria a luz que ela lhes emprestava. Calou-se pois o povo. Enviuvara a manhã.


por: https://www.facebook.com/RicardoZambujoFotografia/



domingo, 2 de abril de 2017

Terra Chão

"Vamos lá saindo
Por esses campos fora
Que a manhã vem vindo
pelos lados da Aurora..."

           Moda Popular Alentejo



A Terra chama ao chão. Vai assim de mansinho, com um jeitinho quase ausente, um sussurro ao de leve, um ar de que não quer, soprando na vida dos que vão, dos que ficam e querem ir, o ar quente que se ergue do chão em ondas ascendentes de calor opressivo ou frio contundente.

Irremediável o chão da Terra. Um sempre, sempre a tocar constante. Ao de leve primeiro, como um roçagar de dedos na pele de quem se quer, em violentos chamados e invasivos clamores depois, quando já nada mais resta senão o desejo do chão.

O chão seco atravessado de fendas, as veias da Terra, onde pousam passarinhos e nascem inusitadas flores, mimosas, papoilas, chagas-de-cristo. O chão que se converte em mar, que inunda o espaço entre o nada e o lado nenhum, que levanta um lençol de água a cobrir velhas azinheiras, oliveiras, carvalhos escuro.

O chão da Terra não tem nome. Conhece-se pela memória de cheiro que de repente nos invade as narinas, rebenta o coração. Não tem idade. Atinge em cheio os homens maduros, as senhoras da sua casa, as velhas exiladas e os meninos sem escolha. Ser do chão e ser da Terra são uma e a mesmíssima coisa. Uma coisa que é una com os passos dos que partem ou dos que com algum fio quebrado pelo caminho, são pertença da Terra de qualquer modo.

São do chão os que se emocionam ao pisá-lo. Ao ver-lhe as lonjuras, os rasgos, curvas discretas ou nalguns casos acentuadas, a desembocar em linhas finas de água ou vales, planícies louras ou roxas. Os que o amam recebem esse Amor de volta, que o chão é fiel, dedicado ainda que inconveniente, intempestivo, caprichoso. Todos os homens da Terra são pastores, lavradores neste chão. Amam-no com a determinação e empenho que se dedica a uma amante teimosa mas única e por isso indispensável. Todas as mulheres recolhem dele, mãos abertas no solo ou fechadas em concha, os frutos do amanhã, que hão-de parir e criar os filhos desta Terra. As crianças espojam-se nele, comem o seu pó, lavam-no com as suas lágrimas ou salpicos da ribeira. Os velhos deixam-no entrar pelos olhos dentro. Das soleiras das portas, dos quintais nas traseiras, absorvem-lhe a luz, a dureza, o movimento- só os tolos acham que a Terra não se move- e tranquilizam-se.

Todos sabem que tudo está certo quando se olha o chão, que está por debaixo dos pés é certo, mas que permite uma espinha direita, cabeça erguida. É digna a Terra e enquanto houver chão não há furto possível a esta condição. Na distância que há quando se passam dois rios ou um oceano para ir até onde a vida possível poderá ser melhor, surge muitas vezes a memória deste chão, recoberto das lajes da casa de entrada, da terra batida do largo da feira, do solo árido a tapetear o olival e então chora-se.

Sabe-se que há um chamado que é preciso cumprir. Volta-se à Terra, ao chão que é nosso e começa-se de novo, É assim na Terra: antes de haver homens, já havia chão.

https://m.facebook.com/RicardoZambujoPhotography/

domingo, 30 de outubro de 2016

Do Monte à Terra

  Na Terra as manhãs são límpidas. Tocam os sinos a marcar as horas. A luz e o som entram pelas casas, pelas frinchas das portas e das janelas e pelos intervalos dos postigos. As cortinas de renda ondulam levemente, quase sem o fazerem, aos primeiros sopros da brisa da manhã. Ouve-se o som de uma cancela de madeira a arrastar e os pássaros fazem piados lentos e bonitos para dedicar às primeiras horas do dia e aos homens madrugadores. Dentro em pouco subirá no ar o cheiro das fatias fritas, do café fervendo, da lama assente nos caminhos a secar aos primeiros raios de sol.

  Pela estrada velha, a única na Terra antes dela o ser, sobe-se ao Monte, o lugar único onde tudo começou, abençoado pela água sob a forma de uma ribeira que lhe corre por dentro e que o faz senhor de tudo quanto o rodeia. 

  Teresinha não sentia que habitava o Monte mas antes que este a tinha engolido quando criança e que vivia presa nas suas entranhas, qual Jonas na barriga da baleia. Vivia uma existência abúlica, de mão no queixo, cabeça nas nuvens, olhos muitos vezes cerrados ou levemente húmidos por conta dos sonhos acordada ou dos inúmeros bocejos. Vestia vestidos de algodão leve e rendas, sapatinhos de pele importada, o cabelo em canudos estrategicamente presos com laçarotes de cetim. Palavras bem medidas, aulas de costura, Francês e Religião com as freiras da vila e de doçaria com a Ti Inácia na cozinha, Teresinha parecia uma santa ou uma boneca na caixa, com a corda nas costas, ainda virgem, pronta a ser puxada para que andasse e falasse como era esperado que fizesse.

Teresinha era pois, facto consumado, um lindo vulcão bem vestido e penteado, adormecido. Acordava todas as manhãs e inspirava profundamente o primeiro ar frio do dia com esperança de que se enchesse tanto de ar que talvez ficasse leve e flutuasse, voasse por cima dos muros altos do Monte, do olival e da vinha que se estendiam numa área infinita para lá da sua janela.

  Teresinha odiava com um amargor não suspeitado, o servilismo forçado das criadas. As constantes tentativas para lhe tentarem perceber todos os sinais, tiques e toques, à mesa, na cama, portas adentro, antecipando-a, acreditando que isso sim, era bem servir. Todos os dias recomeçava Teresinha uma batalha com o seu lar, de gente que não lhe estava próxima do coração ou sequer que a tocasse ao de leve na pele, via rápida para os sentimentos.

  Às vezes vinha a Dona Laura, professora da escola primária, para tomar chá e bolinhos e a conversa revolvia invariavelmente ao redor das crianças miseráveis da Terra, de barrigas vazias mas de peito cheio, trazidas à escola pela mão das avós ou dos irmãos mais velhos ao toque da sineta. Mais tarde, à porta do Monte acumulavam-se muitas vezes essas mesmas crianças, andavam "à pida", quilómetros a pé e em bando, implorando de porta em porta, por um aconchego para o estômago, alguma coisa que engrossasse o caldo magro que recebiam nas suas casas à noite.

  Teresinha dava-lhes tudo o que aparecia, sacos de nozes, potes de mel, metros de tecido, qualquer coisa, sem pensar a quanto nem porquê. As criadas impacientavam-se, que tudo isto lhes desorganizava as contas e o avio. Quanto ao pai e à mãe, não se opunham, alguma coisa teria de ter Teresinha com que se ocupar até que se casasse, ou não? Manuel Augusto e João Bernardo, seus irmãos mais velhos, lá estavam, cada um na sua vida, um engenheiro na capital e o outro, senhor de terras ainda mais a Sul, um deus ganadeiro que prometera a seu tempo, trazer marido para a irmã mais nova, um homem direito, como ele próprio, outro pequeno deus que pudesse transferir calmamente a sua irmãzinha da barriga da baleia para a boca do lobo.

  Uma ocasião, voltou atrás um desses gaiatos que andavam de monte em monte, dia após noite. Chegou já ao final da tarde, pouco faltava para a hora da ceia e envergonhado, pediu à criada da cozinha para falar com a Menina Teresinha. Mandava-o seu pai, homem novo mas viúvo que por conta de um feitio inquieto e bravio, já não tinha parança em trabalho algum sob a alçada do senhor do Monte. Devolvia com muitos agradecimentos a nota alta que lhe mandara a menina, que dinheiro não, não precisava, só de trabalho e de comida para a boca.

  "- O teu pai sabe ler?" indagou Teresinha ao gaiato. Que sabia, que, filho do único sapateiro da terra, tinha podido fazer até aos estudos liceais e que mais não fizera porque se lhe foram os pais na mesma altura e que tinha tido de começar a trabalhar. Não contava porque não sabia que pela mesma época, engravidara a sua mãe e que teve de fazer um casamento apressado, mal tendo onde viver e o que comer e pouco gozando da alegria de ter uma mulher que esta também se finou no parto do seu menino. Zé do Diabo o passaram a chamar. 

  Pois mandou-lhe Teresinha uma mensagem no papel perfumado de carta que tinha na mesinha do quarto e no qual redigiu tantos outros bilhetes que se seguiram a este, com o mesmo destinatário. Perdoasse pois o Sr. José a insolência, se lhe causava mau estar, que havia mandado o dinheiro ao menino pois as criadas adivinhando a vinda dos gaiatos, lhe haviam sumido com tudo da frente e trancado a despensa com a desculpa dos ratos e que com dó de ver os meninos saírem do Monte de mãos vazias, passara a cédula para a mão do Alvarito (assim se chamava o menino) que lhe parecera o mais ajuizado, para que a repartisse com os seus companheiros.

  Desculpas aceites, o Zé do Diabo não podia consentir que a menina Teresinha pensasse pois que, pobre ninguém, se tomara de ofensas por teimosia em questão tão miúda. Bilhete veio, bilhete foi, passou-se um ano na vida do pequeno Álvaro em que a missão de levar e trazer palavras do Monte à Terra e pelo mesmo caminho de volta, era mais importante do que saltar ao arco ou jogar à malha no Largo do Poço. 

  Pela Festa de Verão viu-se o Zé do Diabo pela primeira vez pisar a casa de Deus na Terra, igreja adentro, fato novo, botas engraxadas, quase um desmaio ao ver Teresinha, santa e vulcão, pisando discreta o caminho do altar para comungar. Acabada a festa, foi um ar que se lhes deu aos dois. Antes, aos três. Em cima da cama no Monte, as rendas, os laços, a mãe lavada em lágrimas, os ecos dos gritos do pai e dos irmãos, jurando matá-los ou renegá-los se não o conseguissem.

  Fez-se uma nova Terra noutra Terra em que Teresinha se fez do Diabo, em que se permitiam ser vulcão e ribeiro manso, uma santíssima trindade de trabalhos, de risos, de dias difíceis e completos. Em que um Homem é Homem no sagrado da sua casa, da sua própria Terra.


in: http://www.meloteca.com/portugal-poesia-e-musica-alentejo.htm 



terça-feira, 28 de junho de 2016

Terra de Joana da Cruz

"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."
                                                      SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira.

Difícil é pôr em papel o tom de uma voz. O trinar antes, de uma garganta que seguramente estaria reservada muito mais para pássaro do que para gente. Primeiras tiradas, requintas vibrantes, Joana cantava com o corpo todo. Antes mesmo do tempo das igrejas na Terra, a sua voz era como cântico divino, a multidão em sua volta para a ouvir cantar uma- não tão pequena- assembleia de fiéis.

O povo não a ouvia sem se comover, sem se deixar imbuir de um dó muito maior do que o que viva nas notas e palavras das muitas melodias inventadas pela boca de Joana. Até ao velho Jerónimo, pastor de cabras, nos seus caminhos perdidos, lonjuras da Terra, o som da voz de Joana alcançava. "Eia Joana de uma cana!" gritava-lhe o velho lá de onde estivesse, corpo sacudido pelo choro, sinal de uma solidão que nem sabia que sentia.

Era assim a voz da moça, parecia que entrava pelos corpos adentro, fazia a gente de repente consciente de que o coração bombeava o sangue: o som entrava na cabeça e depois era o diabo para sair. Os olhos fechavam, a cabeça pendia como que a pedir oração ou a vergar-se à sua inevitabilidade. E se algum grupo era chegado, botas de cardar batendo o terreno, pés firmes pelas ruas da Terra afora no final de mais uma jorna, ao som do arranque do peito da Joana em versos que faziam doer por dentro, imediatamente se sustinham. Imóveis. O tempo parado. O ar quieto. O calor a fazer tremer a paisagem e a voz de Joana solta pela planície, a atingir em cheio o pôr do sol. 

Todos os dias igual. Serviço acabado, chão de lajes lavadas, tímidos estalos do lume a soarem no lar se era Inverno ou o som dos primeiros ralos nos aloendros e pereiras do quintal se acaso fosse Verão. Joana tomava da sua cadeirinha branca de florinhas azuis enfeitada, assento de palha grossa entrançada, presente dos padrinhos aos quinze anos. Ensaio de um dote que nunca chegou a sê-lo ou a servir como tal. A cadeira em frente da porta de casa e enquanto debulhava favas, ervilhas, feijão, vagens, Joana afundava a dor, tanta e tão comovida,em notas perfeitas, numa garganta de mel, numa língua agitada, numa voz clara, pura a lembrar água corrente, ribeiro manso na secura da Terra. 

Aos quinze anos precisamente caiu Joana da Cruz de rosto num braseiro. Os olhos não se salvaram. O rosto queimou como papel. Joana só por dentro. O seu dote descobriu-o nos versos que dita, na música que nunca soube que lhe vivia no avesso.

Ninguém se atreveu a falar da maldição de Joana pois se a tantos lhes parecia mais uma benção. Se não para a própria, para os da Terra, gente de pouca fé. que descobriu o sagrado no som daquele peito magoado, naquela boca desfigurada e que cantava o amor e o desamor como se os conhecesse de outras vidas, de outros lugares.

Dentro do coração de Joana, o lume não interferiu para estrapaçar. Antes, atiçou-lhe como que uma chama nova. Um som que falava com ela, que a convidava para os limites de todas as Terras, que a fazia ver para além da alvura das casas, do pó vermelho dos caminhos, que as árvores e muros de pedra marcando os limites destes montes e herdades.

Crescia Joana em cada nota. Elevava-se para lá do que os seus olhos aguados, quietos, afundados, chegaram a ver nos quinze anos em que falaram com ela. Nunca houve pena em Joana. Havia uma dor calma, quase serena. Talvez a dor de saber que é necessária dor para que haja crescimento. Para que no fim, a sua voz viaje e cante por ela e por todos quanto na Terra habitam e não têm voz.



in Alexandre Pomar, Sete Fotografias





                                Celina da Piedade- Rosa Enxertada (Tradicional Alentejana)