sábado, 18 de abril de 2015

Joaquina da Terra

  A Joaquina é um bicho-da-conta. Toda enroladinha, os queixos a baterem no peito, as costas curvadas numa curva perfeita, tão redondinha a Joaquina que se não fossem os solavancos de uma perna com que manca ligeiramente, aventurando-se pelas ruas não calcetadas da Terra, quase se podia dizer que ia ali a passar uma lua cheia vestida de luto.

  Os gaiatos fogem da Joaquina. Mal a vêem vir dos fundos da aldeia, do terreiro seco ao pé do poço da estrada, mesmo ao rés da escola primária, até batem com os calcanhares no cu, correndo, correndo, bradando aos outros que vão vendo pelo caminho: "Foge, foge que aí vem a Jaquinita, a bruxa da cara bonita!"

  É que essa é que é a verdade: o raio da velha tem uma cara limpa e sadia, uma testa quase lisa, ornamentada com uns olhos azuis de água, de criança. Seguramente não de velha. Dizem os gaiatos que ela os roubou a uma princesa moura que passeava numa mula a colher estevas para se enfeitar e ficou com eles para ela atirando a princesa e a mula para dentro do poço ao pé da sua casa. Não há nada que os gaiatos não inventem na ânsia de explicarem o inexplicável através de cabecitas tão pequenas que ainda estão no tempo em que os animais falam e as fadas passeiam nos quintais.

  Pois a Joaquina lá vai, de manhã tão cedo que nem bem luz há. Atravessa a aldeia pelo lado das hortas. Não quer ver ninguém senão a sombra dos pastores ao fundo ou o vestígio de cor apagada de uma bata de trazer por casa de uma ou outra mulher mais madrugadora que tenha saído rapidamente para ver a cor do dia. Segue pelos frajais, rente aos muros quando os há e lá se vai arrastando como pode, vencendo a pé a língua de terreno, pedras e torrões que liga a aldeia ao cemitério. 

  Lá chegada, pára e encosta a palma da mão ao portão. Hesita sempre um ou dois segundos, imbuída do espírito de santuário que parece emanar dos contornos de ferro e ferrugem daquele portal para o outro lado da vida. Ao passá-lo, dirige-se sempre ao mesmo local, agacha-se e ajoelha-se com tanta dificuldade que quase se ouve o ranger dos ossos e das vértebras a dobrarem-se, a atingirem o solo.

  A cabeça descai ainda mais para o peito. A mulher transforma-se num vulto escuro e é difícil distinguir-lhe por baixo do lenço, vestido, meias, xaile, tudo negro, os limites do seu corpo humano. É antes uma mulher-embrião, morta em vida, em oração profunda, estática como o márnore das campas à sua frente.

  Só que dentro deste casulo de mulher há um mundo de imagens, de sons, de cores, de coisas vividas num tempo que já não há. Vê-se a si mesma, a Joaquina pequena, pequenina, filha única e adorada nos braços quentes da sua mãe, a Ti Bárbara. Ouve nos seus ouvidos já moucos as cantigas que a voz materna enchia de mel:


                                        Sossega agora minha Joaquina
                                        Faz na mãe o teu soninho
                                        Meu doce, minha menina
                                        Cheiro de cravos e rosmaninho.

  Sente o embalo dos braços da mãe nos seus. Nem sabe quando foi que saíu deles para embalar ela mesma o berço do seu menino. Traz ainda nos seios o calor do hálito do filho, sente-lhe a forma da boca encostada contra o seu peito. Aperta o seu corpinho despido de encontro ao seu, sente-lhe o odor universal de bebé, de menino da sua mãe. Na sua cabeça sussurra-lhe palavras meigas, cantigas, histórias, orações, bençãos. Cura-lhe todas as dores com um sopro leve na nuca, com o sinal da cruz na testa. 

  É mãe sozinha, o pai nunca esteve. As comadres da Terra diziam à boca fechada que fugiu enfeitiçado por uma da Aldeia Nova, que andava arranjada com uma virtuosa. "Que fosse!" disse a Joaquina. O mundo todo estava na Terra, nos olhos do seu menino.

  Só que o vento que embalava o berço, que seca os lençóis no varal, que nos empurra para que andemos, também sopra de atravesso, vira as cabeças, consome os homens, os meninos.
  Nos olhos de água da Joaquina refulgem os raios impossíveis do sol que brilhava intenso, devastador, no telhado da casa, sobre a chaminé branca de onde pendia a corda, de onde se via o seu menino pendurado pelo pescocito. Nem homem era, nem dera tempo de o ser o maldito vento!

  Nesse dia encurvou-se a Joaquina. Não mais olhou para cima. Poucos podem dizer, depois desse dia, que lhe viram a água dos olhos ou o rosto limpo. Enrolou-se, desprendendo-se dos ossos, caíu sobre o chão e deixou-se estar.

  Vai e vem como um pêndulo, antes que o dia seja dia, todos os dias (do resto) da sua vida na Terra até ao jardim sombrio e ventoso onde repousa agora o seu menino. Volta antes que dêm por ela. Os gaiatos já estão dentro da sala de aula, poucos notam a sua passagem. Silenciosa como a madrugada, sozinha como a vastidão da planície que a fez, segue pela estrada. Arrasta a perna, avança, força-se a andar para a frente. Porque na Terra não há caminho senão esse.


Imagem: http://paula-travelho.blogs.sapo.pt/2008/12/



quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Meninos da Terra

Ao Miguel: pela honra que é ver um homem a nascer de um menino.
                                                                               

  Os donos da Terra não são os senhores dos montes, dos campos a perder de vista, delimitados aqui e ali pelos muros de pedra levantada do solo. Quem manda por estes lados não é o senhor do solar no centro da vila ali a dois passos, pois não.
Este chão é pertença dos verdadeiros reis da Terra: os meninos-homens que ganharam as ruas, os bandos de rapazes que as percorrem de fio a pavio desde que o dia é dia até que a noite se esgueire por debaixo da Terra. Eles aí vão: o Inácio, o Joaquim, o Zé Miguel, o Galito, o Petanca, o Papa-bichos, o Corre-mundos...


  Invadem a aldeia com a sua algazarra, cortam as esquinas com seus aros e varas, bolas de pano, corridas de pneus, jogos de guerra. São homens pequenos e muitos deles já trabalham, outros estão a começar a deitar corpo, a sonhar acordados.
Ouviram as primeiras letras e já sabem fazer versos, rimas de namorados. Calçam botas, vestem coletes esterlicadinhos para irem em grupo, aos bailes da sociedade. Põem-se à porta da padaria, a morder palhinhas, a cheirar o ar quente, de moedas contadas, à espera que a porta abra para serem os primeiros a ferrar o dente num bolo folhado, num olhinho de mel.

  Há um que é filho do mestre da música, é o Panças: anda a aprender o acordeão. Parece um homem do alto dos seus doze anos.  Os outros acompanham-no com vozes a tremerem entre a idade que têm e a que querem ter. Carregam a lenha às mães, fazem mandados na venda para as avós, assobiam orgulhosos de machadinha nas mãos enquanto aprendem a podar videiras, a enxertar oliveiras, a matar um porco e tudo o mais que os pais lhes possam ensinar, que dois braços em casa querem-se é para trabalhar.

  Mas os meninos de pele morena, cabelos fartos, olhos de azeitona bical e buço tímido querem antes os braços para saltar ao alho, para puxar a fisga com força e atirar aos pássaros. Fazem-se fortes, a correr pelos campos infinitos, pelos horizontes profundos, tão longínquos que os fazem crer que eles próprios são invencíveis. Como o ar que respiram, como o sol que lhes cobre as cabeças, os chapéus de abas ou os bonés de feltro.

  Fazem lutas corpo a corpo,entesam os músculos  joelhos esgravatados, narizes a sangrar, as pastas da escola a voarem por todo o lado, para num assobio, darem tudo por acabado e lançarem-se à água, nus em pêlo, numa irmandade indizível de crianças a fazerem-se adultos com a mesma vontade, a mesma gana de viver, o mesmo ímpeto com que as águas da ribeira galgam as margens e alagam a Terra durante as chuvadas.

  No avesso de um menino vive já o pai dos seus filhos, o marido da sua mulher, latejam já as pernas que hão-de caminhar sobre a Terra dia após dia num vagar reconfortante de quem cumpre a sua jorna, de quem sabe que encaixa. De quem dá e recebe vida.

  E são os gaiatos correndo pelos caminhos, calcando bem o chão que os acolhe quem dá à Terra o seu sustento, fazendo dela a casa de outros mais que hão-de vir. Para que não se perca nunca a infância dos homens.





 
                                                          

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

A magia da Terra.

"A única forma de chegar ao impossível é acreditar que é possível."
                                               Lewis Carroll in Alice no País das Maravilhas

  É nas horas frias da noite, na boca aberta da madrugada, dizem, que aparece o Zé do Diabo. Tem um capote largo e escuro debaixo do qual esconde as crianças incautas que trata de roubar aos pais pesarosos.

  É porém,  durante o dia e junto à ribeira que é preciso cautela com a velha Micaela. Tem a cara moída da velhice maior que a do mundo e umas garras que puxam as canelas dos mais distraídos  da margem directamente para dentro de água.

  É preciso cuidado ainda com o leve-leve que dá quando os bailes acabam e a bebida assenta ou não. O João da Eira pode jurar que viu o pai desaparecer no ar, assim tal qual, deu-lhe um embaço e foi-se para não mais voltar.

  Rezam-se novenas às sextas-feiras por alma de quem mais não pode. Ao mesmo tempo fazem-se uns nós de palhinha por baixo do assento do namorado que nunca mais se decide a casar. Baptizam-se os meninos debaixo dos olhos do vigário e da santa cruz para à noite, os entregar à lua nova no céu imenso da noite - que só pode ser ali a morada de qualquer deus.

  São da Terra as histórias que animam os serões, que aceleram o passo até dos mais corajosos que vão do largo do mercado para as suas casas no fim da feira.
Dos bruxos e virtuosas ninguém fala. Esses são curandeiros, bençãos disfarçadas em cara de gente. Deitam os óleos, aplicam unções que nunca chegam a ser extremas e fazem chás. Tiram os males do corpo quando o corpo está pronto para se entregar. Que para tudo é preciso fé e horas de dias e  noites a passar diante dos olhos.

  Nascem as mulheres e os homens desta Terra já com o sinal da cruz na testa para depois pousarem os pés nela pela primeira vez e descobrirem que ela vai menos povoada de gente que de seres fantásticos, madrinhas de luz, homens de preto, almas penadas, santos que não se elevam porque não largam o seu chão, É uma religião tão cá da Terra a nossa que se deveria chamar antes semente ou raiz.

  Se morre um marido à sua mulher, as lajes não se lavam, o cabelo não se penteia e volta-se as costas à porta. Se morre um filhinho- e não há religião que console desta traição- é natural que os pais variem. Não destapam nunca mais a cabeça. Todos enlutam e conforme a dimensão da dor, o luto  avança ainda mais pelo corpo, deixando às vezes só uma nesguinha de vida perto dos olhos.

  Na Terra a família é só uma e uma benção para mim é uma benção para todos, uma desgraça geral é como uma dor só minha. A Terra que tanta terra comeu na poeira dos dias através dos tempos, sussurra entre dentes as suas orações. Que não são a este ou àquele santo ou um apelo a um Deus que tão longe vive. São antes impulso, chamada entoada aos irmãos e irmãs que vivem na mesma energia, que marcham com os mesmos pés, nas mesmas labutas, com as mesmas dores e alegrias.

  Somos um só por aqui e essa é que é a magia da Terra.


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O Tempo e a Terra

  "Mas tu só vais conseguir
Esta terra possuir
Se a pintares com q
uantas cores o vento tem"

                                      Susana Félix, Quantas Cores o Vento Tem

  Na Terra não se corre. A pressa não serve aos de cá, a não ser que seja a de viver ou a de sorver o ar todo pela manhã. Aos da Terra, reconforta o lento viajar dos ponteiros do relógio de uma hora a outra perfazendo o ideal de gratidão- e não de passividade- que permite um tempo para cada coisa e cada coisa em seu devido tempo.

  Todos sabem da urgência de não tornar nada urgente e de abrir o peito, os olhos, a porta de casa ao que o dia trouxer de novo. Ou de imutável, que é o que - dizem os outros- custa mais enfrentar com paciência, resiliência. Sobem nuvens na atmosfera, descem águas sobre o chão e sobre os homens; a noite faz-se menina para logo em seguida se fazer mulher madura, alta, impenetrável, até que a luz se imponha, a domine sem a aprisionar e morrem os velhos para se criarem os filhos.

  Flores só as do campo: as macelas, as mimosas, alguns dentes de leão e as saudosas papoilas. Árvores que chegam sementes e ficam para sempre, arreigadas ao solo, numa relação eterna. Os homens, os animais, todos vêm e vão numa cadência pausada e num desfolhar quase guloso das páginas do livro desta Terra , onde ninguém é personagem principal e onde o final pega com o início, fechando um ciclo que não se quebra.

  Quem parte- pés na estrada, tentativa de andar para a frente, olhos fixos na paisagem para trás das costas- leva no centro de si o equílibrio fundamental dos que respiram as estações do ano. As alterações subtis do vento, o movimento quieto do céu, que se percebe melhor quando visto do chão da planície, o cheiro de um madeiro que arde ou das palhas secas esvoaçando no campo, ajudam à memória de quem fica e o tempo divide-se entre esta ou aquela tarefa. No tempo dela. Porque outro não há senão o de fazer as coisas, o de abraçar com vontade  o que tem de ser feito por uma (ou numa) Terra que é de quem a trabalha.

  E os dias são todos longos e são todos dádivas para quem os quer ver assim. Entram neles muito mais do que números num calendário, pendurado por cima do poial na cozinha ou na parede da taberna. Os dias soam a pássaros madrugadores, chilreando, pipilando, assobiando nos ramos de todas as Primaveras. Sabem a fruta doce como o mel, de sumo escorrendo pelo bigode dos que se julgam mais sérios, em tardes abrasadoras com gosto de poeira de Verão. Aportam em si mil e muitas cores em Outonos de laranjeiras fartas, bolotas castanhas rolando pelo chão, fins de tarde dourados na linha de um horizonte longínquo. Cheiram a terra molhada pelas chicotadas da chuva de um Inverno que ninguém lá fora sabe tão duro, tão amo e senhor do que encontra pela frente. Os dias tocam-se com as mãos o ano todo, palmas para cima, adivinhando a humidade ou a força do vento.

  Deixem-se os que não são desta Terra, os que não entendem ou que fazem pouco caso das costas curvadas de um homem e de sua mulher- meninos também os há- que se encostam à sombra de um sobreiro, azinheira que seja, que é grande a calma, tão vastos os trabalhos, para uma merecida sesta, quando ela é possível.

  É pois do tempo que se gera tempo, que se pare a vida, uma hora vagarosa atrás de tantas outras, fazendo desta Terra uma obra serena, quadro pintado dos matizes puros dos dias.


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O Sonho e a Terra

"(...) Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança."

António Gedeão In Movimento Perpétuo, 1956



Recomenda-se aos da Terra que deixem os sonhos para de noite, para quando estes não são controláveis pela mão do Homem e nem pelas muitas mulheres que O habitam. Sem intervenção, não podem haver encargos, mais culpas numa tradição já longa delas e doutros pecados que por aqui se expiam em vidas, a vida toda. 

Com os olhos fechados não se pode dizer que se viu ou sentiu. Os olhos que são o espelho das almas e o reflexo do mundo, só podem ser responsáveis pelo que trazem para dentro do corpo ou para o círculo imaterial que rodeia os homens. Com aqueles fora de serviço, a obra que passa a processar-se dentro dos cérebros e dos corações não pode ser senão divina. Ou inexplicável. O que para os da Terra é uma única coisa. 

Um menino fecha os olhos, cansados, lassos. Encerra por momentos o ciclo de correrias, saltos ao arco e à dianteira, de puxões nos cabelos das raparigas, de jogo da bola e touradas fingidas. Não consegue resistir nem mais um momento ao selamento doce e pacífico das pálpebras, ao amolecimento dos membros por cima da enxerga dura. Assim que o faz, entra logo a sonhar e o descanso só durou o tempo necessário para que passasse de um estado ao outro, como é esperado na sua idade.

Idade que ninguém sabe qual é e que pouco importa, que na Terra a diferença entre gaiatos e homens são só os cueiros. Em tudo o mais, os novos têm que igualar os velhos e não há velho que não dê em menino nos arremessos da vontade e nos retrocessos da vida.

Sonha pois, com a idade que os seus sonhos determinam que tem. Só esses, películas silenciosas, retratos tão mudos como os que se exibem em cima da cómoda do quarto, denunciam os anos que passaram ou não no coração de onde eles nascem. As imagens que cruzam os impulsos energéticos, que entrecortam o bater de cada pálpebra, são segredo, histórias que não se contam pelo timbre da voz acordada.

Nem a Pai, nem a Mãe. A nenhum ser da Terra, nem desta nem de nenhuma outra. São vida vivida no avesso de cada um. São força motora de pernas e braços que se juntam para andarem para a frente em sonhos de olhos abertos.

                                                        (Ao F. Para não se esquecer de sonhar.)

Imagem: http://www.top10films.co.uk/archives/15980



sexta-feira, 18 de julho de 2014

Sementes da Terra


"Coração é terra onde ninguém vê."
                   Cora Coralina


  Colher é um acto de Amor. Semear ou plantar foram à sorte: soprou-se para a mão, benzeu-se o saco das sementes ou a varinha de cana com o rebento e esperou-se que tudo corresse pelo melhor, aguardando que a Natureza tivesse vontade de gerar, de se sintonizar com o Homem para ver crescer a Vida. Mas colher...oh colher! Colocar as mãos em concha, tocar ao de leve com os dedos enrugados nas primeiras folhas lisas ou nos frutos doces, redondos, plenos de si mesmos, é por si só um milagre de ressurreição. Enterra-se a vida sob o solo árido para que ela volte a respirar sobre ele, com mais vigor, mais força ainda do que a imagináramos contida no círculo de uma semente.

  Colhe-se com Amor e ama-se o que se colhe, chame-se trigo, melão ou feijão meloal; batata, cebola, tomate maduro ou até beldroegas. A tudo se dá forma, se dignifica com mil cuidados que vão da delicadeza da mão de quem os toca a vez primeira debaixo do sol quente, até que borbulhe em panela de barro ou de ferro pesado num calor que é mais brasido, dos fogões com ventre de lenha ou no borralho da chaminé.

  Todo o processo é pretexto para renovar o que se sabe, fazer de novo o que já é hábito e sentir o (re)conforto de voltar ao mesmo lugar, de sentir o mesmo toque, sabor, odor que o corpo já tão bem conhece. Azeitona, uva, bolota. Os frutos da miséria que regressam à casa dos sentidos, são para os da Terra como marcas, tatuagens, imagens de filhos em retratos animados de cor e cheiro.

  O esqueleto sabe as voltas do cajado, moldou-se ao movimento da foice, contorna os limites do panal e debaixo dos panos escuros, chapéus de palha, faz correr rios de suor por entre as curvas da pele. Trabalha como quem dança, com passos e gestos precisos, de quem já o faz há mais tempo do que o que se recorda, para num momento de êxtase, se dobrar, agachado ou de joelhos no chão, a ver despontar um raio de luz sob a forma de árvore, planta, esperança.

  A Terra move-se continuamente, pulsa, o seu centro lateja, rompem-se os torrões secos , voltam a desbravar-se caminhos velhos e reconstrói-se o que já existe. Faz-se mais e melhor, usam-se os braços, repousam flores, cabeças pequenas em regaços. E no fim, quando o dia acaba, o sol se põe em ocasos roxos e os passos ainda são muitos nas terras da Terra até que se aviste o fio fino de fumo da chaminé caiada, os olhos semicerram-se, o nariz e a boca abrem-se levemente para inspirar os aromas que o vento traz: uma sopa quente, a terra molhada, o ar seco, a água que corre na ribeira, cheia pela chuva incansável do Inverno ou por algum milagroso aguaceiro de Verão.

  Para os de cá, o Amor é isto: é imensidão, é vasto, é planície. E no entanto cabe no espaço oco entre duas mãos que se juntam para colher a primeira flor, o primeiro fruto que nasce da Terra.

                                     


quinta-feira, 5 de junho de 2014

A Terra toda numa gota de suor.

«Um dia escrevi que tudo é autobiografia, que a vida de cada um de nós a estamos contando em tudo quanto fazemos e dizemos, nos gestos, na maneira como nos sentamos, como andamos e olhamos, como viramos a cabeça ou apanhamos um objecto do chão.» (...)


                                                                      José Saramago, In Diário de Notícias, 1998-10-09

  Uma gota de suor, transparente, salgada, cai da nuca em viagem acidentada pelo pescoço e ao longo da linha da coluna. O vento seco com aroma de deserto, que faz os trigais em pó e escurece o chão, cola também o luto à pele e faz refrescar, na sombra dos panos, o corpo cansado, amolecido. Toca um dedo, dois, a mão toda na testa suada, no cabo da enxada. Alternando entre uma e outro, o dia se vai, descendo devagar, aliviando o brasido, entrando na noite ao som dos ralos escondidos por entre os ramos, restolho e raízes largas. Escavam-se covas, pequenos cofres naturais para guardar os pertences que não pertencem a ninguém, ou que são de todos os da Terra: um queijo, chouriças e morcelas, quando as há e água sempre fresca na cantarinha de barro. 

 As paisagens que mudam como o dobrar das estações do ano, dão à terra enfeites renovados, acessórios novos, numa moda que parece imutável de já tão conhecida: há os panais fazendo saia por baixo das oliveiras umas vezes; outras em que os sobreiros vestem de tinta branca para não quedarem desnudados mais um ano, até que lhes renasça a pele. Na refrega dos últimos calores, as videiras que antes eram cheias, fartos corredores de verde a atravessar a planície, despem-se por sua vez, exibem os seus ramos raquíticos, despojados de fruto, num eterno abraço umas das outras. Antes disso, já tremeu a seara, à vista dos da Terra, que só conhecem as distâncias pelos nomes dos campanários, dos montes e da disposição dos rolos de palha que ocasionalmente os polvilham. As papoilas de olhos negros profundos, coroados de vermelho-paixão,espreitam por todo o lado nessa época. Saem de casa os da Terra, todos os anos, todos os dias à mesma hora para encontrar à sua frente uma paisagem sempre diferente, desembocando graciosamente, rente às suas paredes brancas.

  Reconhecem-se os forasteiros pelo tom monocórdico que assumem ao falar, pela indiferença com que afirmam em boquinhas meio cerradas e por cima dos ombros: "isto é tudo sempre igual". A Terra com esses não fala. Não tem com eles conversas de Amor trazidas no Suão, que se ajeita por dentro das roupas, junto aos corpos, trazendo em si ainda, memórias de uma areia longínqua. Não. Para os que não são da Terra, ou das terras da Terra, aquela não se abre, qual fêmea decidida, segura dos seus deleites e espectáculos de cor e cheiros. 

 Para os que a acham monótona, sem graça, parada, a Terra faz-se imóvel, que é isso que eles querem que seja. Ou é ela pois, que ciosa dos seus segredos, escolhe pelos dedos os que podem ser seus filhos, seus maridos, seus amantes, depósito inabalável do que mais ninguém sabe. E os da Terra aprendem a ouvir, escutando. Sabem fazê-lo desde muito cedo, antes mesmo que lhes invada a retina pela primeira vez, a luz brilhante, reflexo do solo em ondas de uma água que não há, que por aqui nunca houve.

  E os homens não chegam à Terra senão para habitarem nela. São eles os braços da Terra, as pernas que a levam por todo o lado até onde a voz, o vento e o eco já não alcançam. As mulheres carregam a Terra no ventre, geram-na e parem-na vezes sem conta e contam aos delas as histórias de outros que andaram por cá. Vive então para além dos dias, chega a distâncias que desafiam os recursos do Homem; viaja em pequeníssimos registos celulares, em impulsos de vida, uma memória vaga de calor ou geada no coração de alguém. 

  A Terra faz-se lembrada nas gotas de suor que transportamos no dorso, no cheiro do pão cozido que faz inundar os olhos de lágrimas felizes e nos borralhos dos lumes há muito apagados. Porque para os da Terra, não importa para onde vamos. Só nos importa saber de onde viemos.