Mostrar mensagens com a etiqueta suor. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta suor. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Sementes da Terra


"Coração é terra onde ninguém vê."
                   Cora Coralina


  Colher é um acto de Amor. Semear ou plantar foram à sorte: soprou-se para a mão, benzeu-se o saco das sementes ou a varinha de cana com o rebento e esperou-se que tudo corresse pelo melhor, aguardando que a Natureza tivesse vontade de gerar, de se sintonizar com o Homem para ver crescer a Vida. Mas colher...oh colher! Colocar as mãos em concha, tocar ao de leve com os dedos enrugados nas primeiras folhas lisas ou nos frutos doces, redondos, plenos de si mesmos, é por si só um milagre de ressurreição. Enterra-se a vida sob o solo árido para que ela volte a respirar sobre ele, com mais vigor, mais força ainda do que a imagináramos contida no círculo de uma semente.

  Colhe-se com Amor e ama-se o que se colhe, chame-se trigo, melão ou feijão meloal; batata, cebola, tomate maduro ou até beldroegas. A tudo se dá forma, se dignifica com mil cuidados que vão da delicadeza da mão de quem os toca a vez primeira debaixo do sol quente, até que borbulhe em panela de barro ou de ferro pesado num calor que é mais brasido, dos fogões com ventre de lenha ou no borralho da chaminé.

  Todo o processo é pretexto para renovar o que se sabe, fazer de novo o que já é hábito e sentir o (re)conforto de voltar ao mesmo lugar, de sentir o mesmo toque, sabor, odor que o corpo já tão bem conhece. Azeitona, uva, bolota. Os frutos da miséria que regressam à casa dos sentidos, são para os da Terra como marcas, tatuagens, imagens de filhos em retratos animados de cor e cheiro.

  O esqueleto sabe as voltas do cajado, moldou-se ao movimento da foice, contorna os limites do panal e debaixo dos panos escuros, chapéus de palha, faz correr rios de suor por entre as curvas da pele. Trabalha como quem dança, com passos e gestos precisos, de quem já o faz há mais tempo do que o que se recorda, para num momento de êxtase, se dobrar, agachado ou de joelhos no chão, a ver despontar um raio de luz sob a forma de árvore, planta, esperança.

  A Terra move-se continuamente, pulsa, o seu centro lateja, rompem-se os torrões secos , voltam a desbravar-se caminhos velhos e reconstrói-se o que já existe. Faz-se mais e melhor, usam-se os braços, repousam flores, cabeças pequenas em regaços. E no fim, quando o dia acaba, o sol se põe em ocasos roxos e os passos ainda são muitos nas terras da Terra até que se aviste o fio fino de fumo da chaminé caiada, os olhos semicerram-se, o nariz e a boca abrem-se levemente para inspirar os aromas que o vento traz: uma sopa quente, a terra molhada, o ar seco, a água que corre na ribeira, cheia pela chuva incansável do Inverno ou por algum milagroso aguaceiro de Verão.

  Para os de cá, o Amor é isto: é imensidão, é vasto, é planície. E no entanto cabe no espaço oco entre duas mãos que se juntam para colher a primeira flor, o primeiro fruto que nasce da Terra.

                                     


quinta-feira, 5 de junho de 2014

A Terra toda numa gota de suor.

«Um dia escrevi que tudo é autobiografia, que a vida de cada um de nós a estamos contando em tudo quanto fazemos e dizemos, nos gestos, na maneira como nos sentamos, como andamos e olhamos, como viramos a cabeça ou apanhamos um objecto do chão.» (...)


                                                                      José Saramago, In Diário de Notícias, 1998-10-09

  Uma gota de suor, transparente, salgada, cai da nuca em viagem acidentada pelo pescoço e ao longo da linha da coluna. O vento seco com aroma de deserto, que faz os trigais em pó e escurece o chão, cola também o luto à pele e faz refrescar, na sombra dos panos, o corpo cansado, amolecido. Toca um dedo, dois, a mão toda na testa suada, no cabo da enxada. Alternando entre uma e outro, o dia se vai, descendo devagar, aliviando o brasido, entrando na noite ao som dos ralos escondidos por entre os ramos, restolho e raízes largas. Escavam-se covas, pequenos cofres naturais para guardar os pertences que não pertencem a ninguém, ou que são de todos os da Terra: um queijo, chouriças e morcelas, quando as há e água sempre fresca na cantarinha de barro. 

 As paisagens que mudam como o dobrar das estações do ano, dão à terra enfeites renovados, acessórios novos, numa moda que parece imutável de já tão conhecida: há os panais fazendo saia por baixo das oliveiras umas vezes; outras em que os sobreiros vestem de tinta branca para não quedarem desnudados mais um ano, até que lhes renasça a pele. Na refrega dos últimos calores, as videiras que antes eram cheias, fartos corredores de verde a atravessar a planície, despem-se por sua vez, exibem os seus ramos raquíticos, despojados de fruto, num eterno abraço umas das outras. Antes disso, já tremeu a seara, à vista dos da Terra, que só conhecem as distâncias pelos nomes dos campanários, dos montes e da disposição dos rolos de palha que ocasionalmente os polvilham. As papoilas de olhos negros profundos, coroados de vermelho-paixão,espreitam por todo o lado nessa época. Saem de casa os da Terra, todos os anos, todos os dias à mesma hora para encontrar à sua frente uma paisagem sempre diferente, desembocando graciosamente, rente às suas paredes brancas.

  Reconhecem-se os forasteiros pelo tom monocórdico que assumem ao falar, pela indiferença com que afirmam em boquinhas meio cerradas e por cima dos ombros: "isto é tudo sempre igual". A Terra com esses não fala. Não tem com eles conversas de Amor trazidas no Suão, que se ajeita por dentro das roupas, junto aos corpos, trazendo em si ainda, memórias de uma areia longínqua. Não. Para os que não são da Terra, ou das terras da Terra, aquela não se abre, qual fêmea decidida, segura dos seus deleites e espectáculos de cor e cheiros. 

 Para os que a acham monótona, sem graça, parada, a Terra faz-se imóvel, que é isso que eles querem que seja. Ou é ela pois, que ciosa dos seus segredos, escolhe pelos dedos os que podem ser seus filhos, seus maridos, seus amantes, depósito inabalável do que mais ninguém sabe. E os da Terra aprendem a ouvir, escutando. Sabem fazê-lo desde muito cedo, antes mesmo que lhes invada a retina pela primeira vez, a luz brilhante, reflexo do solo em ondas de uma água que não há, que por aqui nunca houve.

  E os homens não chegam à Terra senão para habitarem nela. São eles os braços da Terra, as pernas que a levam por todo o lado até onde a voz, o vento e o eco já não alcançam. As mulheres carregam a Terra no ventre, geram-na e parem-na vezes sem conta e contam aos delas as histórias de outros que andaram por cá. Vive então para além dos dias, chega a distâncias que desafiam os recursos do Homem; viaja em pequeníssimos registos celulares, em impulsos de vida, uma memória vaga de calor ou geada no coração de alguém. 

  A Terra faz-se lembrada nas gotas de suor que transportamos no dorso, no cheiro do pão cozido que faz inundar os olhos de lágrimas felizes e nos borralhos dos lumes há muito apagados. Porque para os da Terra, não importa para onde vamos. Só nos importa saber de onde viemos.