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terça-feira, 23 de dezembro de 2014

A magia da Terra.

"A única forma de chegar ao impossível é acreditar que é possível."
                                               Lewis Carroll in Alice no País das Maravilhas

  É nas horas frias da noite, na boca aberta da madrugada, dizem, que aparece o Zé do Diabo. Tem um capote largo e escuro debaixo do qual esconde as crianças incautas que trata de roubar aos pais pesarosos.

  É porém,  durante o dia e junto à ribeira que é preciso cautela com a velha Micaela. Tem a cara moída da velhice maior que a do mundo e umas garras que puxam as canelas dos mais distraídos  da margem directamente para dentro de água.

  É preciso cuidado ainda com o leve-leve que dá quando os bailes acabam e a bebida assenta ou não. O João da Eira pode jurar que viu o pai desaparecer no ar, assim tal qual, deu-lhe um embaço e foi-se para não mais voltar.

  Rezam-se novenas às sextas-feiras por alma de quem mais não pode. Ao mesmo tempo fazem-se uns nós de palhinha por baixo do assento do namorado que nunca mais se decide a casar. Baptizam-se os meninos debaixo dos olhos do vigário e da santa cruz para à noite, os entregar à lua nova no céu imenso da noite - que só pode ser ali a morada de qualquer deus.

  São da Terra as histórias que animam os serões, que aceleram o passo até dos mais corajosos que vão do largo do mercado para as suas casas no fim da feira.
Dos bruxos e virtuosas ninguém fala. Esses são curandeiros, bençãos disfarçadas em cara de gente. Deitam os óleos, aplicam unções que nunca chegam a ser extremas e fazem chás. Tiram os males do corpo quando o corpo está pronto para se entregar. Que para tudo é preciso fé e horas de dias e  noites a passar diante dos olhos.

  Nascem as mulheres e os homens desta Terra já com o sinal da cruz na testa para depois pousarem os pés nela pela primeira vez e descobrirem que ela vai menos povoada de gente que de seres fantásticos, madrinhas de luz, homens de preto, almas penadas, santos que não se elevam porque não largam o seu chão, É uma religião tão cá da Terra a nossa que se deveria chamar antes semente ou raiz.

  Se morre um marido à sua mulher, as lajes não se lavam, o cabelo não se penteia e volta-se as costas à porta. Se morre um filhinho- e não há religião que console desta traição- é natural que os pais variem. Não destapam nunca mais a cabeça. Todos enlutam e conforme a dimensão da dor, o luto  avança ainda mais pelo corpo, deixando às vezes só uma nesguinha de vida perto dos olhos.

  Na Terra a família é só uma e uma benção para mim é uma benção para todos, uma desgraça geral é como uma dor só minha. A Terra que tanta terra comeu na poeira dos dias através dos tempos, sussurra entre dentes as suas orações. Que não são a este ou àquele santo ou um apelo a um Deus que tão longe vive. São antes impulso, chamada entoada aos irmãos e irmãs que vivem na mesma energia, que marcham com os mesmos pés, nas mesmas labutas, com as mesmas dores e alegrias.

  Somos um só por aqui e essa é que é a magia da Terra.


quinta-feira, 5 de junho de 2014

A Terra toda numa gota de suor.

«Um dia escrevi que tudo é autobiografia, que a vida de cada um de nós a estamos contando em tudo quanto fazemos e dizemos, nos gestos, na maneira como nos sentamos, como andamos e olhamos, como viramos a cabeça ou apanhamos um objecto do chão.» (...)


                                                                      José Saramago, In Diário de Notícias, 1998-10-09

  Uma gota de suor, transparente, salgada, cai da nuca em viagem acidentada pelo pescoço e ao longo da linha da coluna. O vento seco com aroma de deserto, que faz os trigais em pó e escurece o chão, cola também o luto à pele e faz refrescar, na sombra dos panos, o corpo cansado, amolecido. Toca um dedo, dois, a mão toda na testa suada, no cabo da enxada. Alternando entre uma e outro, o dia se vai, descendo devagar, aliviando o brasido, entrando na noite ao som dos ralos escondidos por entre os ramos, restolho e raízes largas. Escavam-se covas, pequenos cofres naturais para guardar os pertences que não pertencem a ninguém, ou que são de todos os da Terra: um queijo, chouriças e morcelas, quando as há e água sempre fresca na cantarinha de barro. 

 As paisagens que mudam como o dobrar das estações do ano, dão à terra enfeites renovados, acessórios novos, numa moda que parece imutável de já tão conhecida: há os panais fazendo saia por baixo das oliveiras umas vezes; outras em que os sobreiros vestem de tinta branca para não quedarem desnudados mais um ano, até que lhes renasça a pele. Na refrega dos últimos calores, as videiras que antes eram cheias, fartos corredores de verde a atravessar a planície, despem-se por sua vez, exibem os seus ramos raquíticos, despojados de fruto, num eterno abraço umas das outras. Antes disso, já tremeu a seara, à vista dos da Terra, que só conhecem as distâncias pelos nomes dos campanários, dos montes e da disposição dos rolos de palha que ocasionalmente os polvilham. As papoilas de olhos negros profundos, coroados de vermelho-paixão,espreitam por todo o lado nessa época. Saem de casa os da Terra, todos os anos, todos os dias à mesma hora para encontrar à sua frente uma paisagem sempre diferente, desembocando graciosamente, rente às suas paredes brancas.

  Reconhecem-se os forasteiros pelo tom monocórdico que assumem ao falar, pela indiferença com que afirmam em boquinhas meio cerradas e por cima dos ombros: "isto é tudo sempre igual". A Terra com esses não fala. Não tem com eles conversas de Amor trazidas no Suão, que se ajeita por dentro das roupas, junto aos corpos, trazendo em si ainda, memórias de uma areia longínqua. Não. Para os que não são da Terra, ou das terras da Terra, aquela não se abre, qual fêmea decidida, segura dos seus deleites e espectáculos de cor e cheiros. 

 Para os que a acham monótona, sem graça, parada, a Terra faz-se imóvel, que é isso que eles querem que seja. Ou é ela pois, que ciosa dos seus segredos, escolhe pelos dedos os que podem ser seus filhos, seus maridos, seus amantes, depósito inabalável do que mais ninguém sabe. E os da Terra aprendem a ouvir, escutando. Sabem fazê-lo desde muito cedo, antes mesmo que lhes invada a retina pela primeira vez, a luz brilhante, reflexo do solo em ondas de uma água que não há, que por aqui nunca houve.

  E os homens não chegam à Terra senão para habitarem nela. São eles os braços da Terra, as pernas que a levam por todo o lado até onde a voz, o vento e o eco já não alcançam. As mulheres carregam a Terra no ventre, geram-na e parem-na vezes sem conta e contam aos delas as histórias de outros que andaram por cá. Vive então para além dos dias, chega a distâncias que desafiam os recursos do Homem; viaja em pequeníssimos registos celulares, em impulsos de vida, uma memória vaga de calor ou geada no coração de alguém. 

  A Terra faz-se lembrada nas gotas de suor que transportamos no dorso, no cheiro do pão cozido que faz inundar os olhos de lágrimas felizes e nos borralhos dos lumes há muito apagados. Porque para os da Terra, não importa para onde vamos. Só nos importa saber de onde viemos.






quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Uma noiva da Terra


 Segue a noivinha pelas ruas da Terra, de branco vestida, rendas e laços a apertarem-lhe um corpo que não conhece o sol. Calça sapatos delicados, novidade digna deste dia só e pisa as ruas de terra batida, de cantos irregulares, equilibrando-se precariamente no seu novo estatuto. Ao avançar, agarra com força o molho de papoilas, malvas, chagas-de-cristo e outras boninas que lhe perfuma o colo desde a manhã. Aperta-o contra si própria como mezinha caseira ou rasto de superstição herdado nem sabe de quem. Criança na manhã de ontem e hoje senhora da sua casa, que é para isso que seu pai a criou, se matou a trabalhar nas terras da Terra em dias e noites que não importa lembrar, que hoje é grande a festa.

 Para trás, na poeira do caminho, ficam também as semanas de bolo batido em casa, o pão amassado em série, tarefas das mulheres que entregam a mulher que hoje aqui se constrói. (Por entre conselhos segredados ao ouvido, os risos das que já conhecem os suores e os cheiros da primeira noite do resto da sua vida, a noivinha que ainda é criança vai ouvindo, de olhos no chão e rosto encarnado, sem saber onde encaixar tanto saber novo que vem todo de repente, inundar-lhe o coração de medos. As suas mãos não param para não dar parte de fraca e amassa com força, liberta-se toda dentro da massa do pão. Bate com a colher de pau contra as paredes da tigela de barro e reza por dentro para que o barulho do material tosco no poial se sobreponha ao descompasso do seu peito.)

 Vai pela rua nova a menina-mulher de braço dado com o Pai, com a bênção da Mãe que a beijou e lhe deixou o sinal da cruz na testa antes que a porta batesse. A casa cheira a sabão, as lajes brilham, há bolos de coco, línguas de sogra, rosquinhas, bolos da raspadura e licores de muitas cores em cima da mesa posta para os vizinhos que vieram ver o vestido, beber uma saúde ao novo lar, nascido hoje. Antes de sair, esteve a noivinha sentada numa cadeira de palhinha, cumprimentando os convivas, fingindo-se envergonhada, sabendo que é linda e gozando o momento, que os panos finos que a envolvem hoje, perderão a sua função passada a meia-noite. Tal qual o sapatinho de uma Cinderela de quem ela nunca ouviu falar.

 Por aqui não se fala de fadas nem de bruxas más. São da Terra e do trabalho, as estórias que a noivinha de olhos escuros e pele clara, ouviu contar desde o berço, que nunca teve. Sabe melhor que ninguém que a Terra é todo o mundo e que é aqui que vai desdobrar-se em filhos e em trabalhos. Sabe que as noites serão curtas para acalmar o cansaço que lhe irá paulatinamente, sulcar o rosto. Não sonhará com dias de redenção ou voos milagrosos e se sua Mãe bem a educou, não sonhará de todo, possivelmente. Será mulher forte, empurrará os seus para a frente, parirá e guardará com orgulho as suas cicatrizes por debaixo de mil saias de chita e cambraia.

 E é tudo isto que exibe no peito, onde brilha um alfinete dourado, presente do namorado, do lado do coração. O cortejo da noivinha de pés pequenos invade as ruas como uma maré de frescura e arrasta consigo, pela terra batida, cheiro de cal e sinos de igreja a tocar ao despique, um desejo de vida longa. Que se celebre pois a gaiata de olhos fundos e vontade de aprender que ontem era. Celebre-se hoje a mulher-baluarte que numa passada breve, chegará à sua casa para dela tecer um novo ciclo e embalar no colo o renascer da Terra, nos homens que hão-de vir.

Fotografia de © jfilipebacalas (http://olhares.sapo.pt/jfilipeb)/


sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

As idades da Terra

As idades da Terra não contam das rugas sulcadas no rosto das velhas. Não falam das malas vazias de coisas e de sonhos nos cais de embarque. Os dias que correram na Terra, de terra para terra, não falam dos outros que passam sobre os desenganos de Amor, os vestidos de noiva pendurados nos guarda-fatos eternamente, as solas dos sapatos gastas nos salões de baile da sociedade recreativa, ou sequer do ir e vir pendular dos pés deste ou daquele homem que junto a muitos outros, vai construindo mais um pedaço de estrada. 

Não. A Terra não se compadece de Amores pequenos, paixões exacerbadas, das vistas de uma janela ou do som de um acordeão triste e solitário a cortar o céu da noite. O lento viajar dos ponteiros do relógio a que se chamou vida, deu à Terra as estações, a chuva correndo pelo solo, o barro mole a formar montes, socalcos e obras que não havia. O tempo deu à Terra as fendas por entre as quais nascem bravamente coroas de beldroegas, mimosas e sálvia, salpicos de cor num manto duro e opaco do chão que parecia estéril.
A Terra girou e não saiu do mesmo lugar, mexeu-se para ajeitar os seus contornos, para reescrever a sua história. A Terra que sofreu o impacto de expelir os primeiros homens do seu centro, viu-os espalharem-se como ondas sísmicas por diversos lugares, a fazer crescer a Terra para tantas outras terras, que já nem nomes há que cheguem para designá-las todas. A panelinha de barro onde ferve o feijão-careto com a abóbora, num caldinho que chia junto das brasas, do almoço para o jantar, já alimentou mais bocas do que aquelas que a Terra pariu. O milagre repete-se dia após dia, ano após ano e o fumegar da panela é tão lato, que a Terra chega às montanhas de neve, para lá das cordilheiras, voa e assenta em casas de telhados negros que não sendo da Terra, guardam os filhos dela quais amas zelosas ou anjos em céus distantes.
A idade da Terra é já muita e quem nela e dela vive nada parece querer contar em particular. Só que a Terra está viva e quanto mais a idade estica e a Terra avança, mais esbatidas ficam as histórias das gentes que são sempre anónimas. A Terra é o que é e não parece já lembrar-se dos meninos paridos debaixo das azinheiras em meio da jorna. Ou das canjas de galinha ou galo, sacrificados por hora da quarentena da mãe recente. Ou ainda das fatias paridas, só de pão e de ovo, em honra da que pariu e que deu à Terra mais dois braços para a trabalharem, mais duas pernas para a calcorrearem.
A Terra é grande e não retém nela os versos à desgarrada, subtis namoros dos bailes de fim de ano ou do fim dos trabalhos, dos quais se sai directamente para outros, se tudo correr bem aos que cá vivem. É grande demais a história da Terra. Não pode lembrar-se de todas as cartas de todas as madrinhas de guerra, de todos os meninos que se fizeram homens e velhos ou que não voltaram inteiros dessas guerras que não lhes pertenciam. Não se pode pedir à memória da Terra que guarde todos os dias felizes em que cheira a sabão-macaco e à água fresca lançada na soleira das portas, ou o sabor da massa frita nos dias de Feira ou sequer a cor das fitas dos cabelos das raparigas, debaixo das mantilhas nas missas de tantos e tantos Domingos.
A Terra de tão velha, é hoje uma Terra nova. A música que se dança, é agora outra, são novos também os pés ricamente calçados a bater no chão da praça durante as festas de Verão. A água dos caldos cheira mais vezes a carne e há automóveis nas ruas de pedra da Terra onde os gaiatos cada vez brincam menos. Olhada de longe, a Terra é vasta, é Norte, é Sul e estende-se por todos os cantos onde a vida habita.
No entanto, eu escolho olhar a Terra por dentro, ver o que ela não conta nas idades do tempo que vai passando por ela. Escolho a luz do candeeiro a óleo para ver cada retalho ao pormenor; abro bem as narinas para deixar entrar o cheiro da terra molhada, o fumo que se liberta das paredes húmidas e da roupa de quem passa. Abro o peito e canto aquela canção que ouvi num tempo que já não era o dela; escuto os sons dos ralos e dos rouxinóis que povoam os campos. Caminho devagar, com os calcanhares bem firmados num chão a que quero pertencer, onde quero ganhar raízes profundas para que, como as árvores da minha Terra, saiba procurar a fonte quando tudo parecer secar.









sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O Pão da Terra

  Na minha terra cheira a terra: molhada depois da chuva ou seca a abrir caminhos que não existiam. Na minha terra cheira à palha seca, ao estrume que é morte e vida e tudo de novo. Na minha terra cheira à lareira apagada, a cinza habitando as paredes à sua volta. 

  Nesta terra que é a minha e de quem eu sou no avesso de mim, cheira às boninas do campo, as mimosas, as chagas de cristo, as papoilas em fogo, beijadas pelo sol de Agosto. Na minha terra o cheiro é de gente, de corpos suados, colarinhos sujos, botas enlameadas. Cheira a queijarias e cabras e ovelhas nos quintais.
  Deito-me e acordo na minha terra com o fundamental cheiro do pão. De noite, tapado, abafado em mil panos quase o ouço crescer, fazer-se grande no breu e no silêncio. De manhã desperto com o sopro vital nas narinas vindo desse deus maior que o tempo: o pão que coze e estala e abre fendas no seu rosto perfeito.


  Com o dia a fazer-se pequeno o pão vai operando os seus milagres e multiplica-se para alimentar todas as bocas que se abrem para ele. O pão que é hóstia sagrada e que também se banha despudoradamente em caldos salpicados de ervas cujos nomes se vão perdendo nas idades do mundo. O pão onde se derrama o azeite quente, luxuriante, dando-se ainda por vezes requintes de polvilho de açúcar.


  O pão cheira a pão e só quem sabe o que isto é pode dizer que viveu verdadeiramente. Porque é na lenha do forno, qual útero fértil, que se gera a vida, que se alimenta a Humanidade antes mesmo que ela se lembre.


  A minha terra é célula apenas, de uma vida bem mais complexa. No entanto, para mim, é só dela este cheiro do pão que me acolhe, me mima, me alimenta, muito antes de viajar dentro das minhas entranhas.


  Cheira a filhos paridos com dor, cheira a caminhos longos, a paisagens desoladoras, cheira a ocasos roxos, cheira à pólvora dos foguetes em dia de procissão, cheira a paredes caiadas de branco. cheira a porcos enfrentando o digno destino final sob o fio da faca, cheira a lajes lavadas com água, a dias quentes e a noites geladas.
  Na minha terra, o pão cheira à minha memória e leva-me a ela, onde quer que me encontre.