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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Uma noiva da Terra


 Segue a noivinha pelas ruas da Terra, de branco vestida, rendas e laços a apertarem-lhe um corpo que não conhece o sol. Calça sapatos delicados, novidade digna deste dia só e pisa as ruas de terra batida, de cantos irregulares, equilibrando-se precariamente no seu novo estatuto. Ao avançar, agarra com força o molho de papoilas, malvas, chagas-de-cristo e outras boninas que lhe perfuma o colo desde a manhã. Aperta-o contra si própria como mezinha caseira ou rasto de superstição herdado nem sabe de quem. Criança na manhã de ontem e hoje senhora da sua casa, que é para isso que seu pai a criou, se matou a trabalhar nas terras da Terra em dias e noites que não importa lembrar, que hoje é grande a festa.

 Para trás, na poeira do caminho, ficam também as semanas de bolo batido em casa, o pão amassado em série, tarefas das mulheres que entregam a mulher que hoje aqui se constrói. (Por entre conselhos segredados ao ouvido, os risos das que já conhecem os suores e os cheiros da primeira noite do resto da sua vida, a noivinha que ainda é criança vai ouvindo, de olhos no chão e rosto encarnado, sem saber onde encaixar tanto saber novo que vem todo de repente, inundar-lhe o coração de medos. As suas mãos não param para não dar parte de fraca e amassa com força, liberta-se toda dentro da massa do pão. Bate com a colher de pau contra as paredes da tigela de barro e reza por dentro para que o barulho do material tosco no poial se sobreponha ao descompasso do seu peito.)

 Vai pela rua nova a menina-mulher de braço dado com o Pai, com a bênção da Mãe que a beijou e lhe deixou o sinal da cruz na testa antes que a porta batesse. A casa cheira a sabão, as lajes brilham, há bolos de coco, línguas de sogra, rosquinhas, bolos da raspadura e licores de muitas cores em cima da mesa posta para os vizinhos que vieram ver o vestido, beber uma saúde ao novo lar, nascido hoje. Antes de sair, esteve a noivinha sentada numa cadeira de palhinha, cumprimentando os convivas, fingindo-se envergonhada, sabendo que é linda e gozando o momento, que os panos finos que a envolvem hoje, perderão a sua função passada a meia-noite. Tal qual o sapatinho de uma Cinderela de quem ela nunca ouviu falar.

 Por aqui não se fala de fadas nem de bruxas más. São da Terra e do trabalho, as estórias que a noivinha de olhos escuros e pele clara, ouviu contar desde o berço, que nunca teve. Sabe melhor que ninguém que a Terra é todo o mundo e que é aqui que vai desdobrar-se em filhos e em trabalhos. Sabe que as noites serão curtas para acalmar o cansaço que lhe irá paulatinamente, sulcar o rosto. Não sonhará com dias de redenção ou voos milagrosos e se sua Mãe bem a educou, não sonhará de todo, possivelmente. Será mulher forte, empurrará os seus para a frente, parirá e guardará com orgulho as suas cicatrizes por debaixo de mil saias de chita e cambraia.

 E é tudo isto que exibe no peito, onde brilha um alfinete dourado, presente do namorado, do lado do coração. O cortejo da noivinha de pés pequenos invade as ruas como uma maré de frescura e arrasta consigo, pela terra batida, cheiro de cal e sinos de igreja a tocar ao despique, um desejo de vida longa. Que se celebre pois a gaiata de olhos fundos e vontade de aprender que ontem era. Celebre-se hoje a mulher-baluarte que numa passada breve, chegará à sua casa para dela tecer um novo ciclo e embalar no colo o renascer da Terra, nos homens que hão-de vir.

Fotografia de © jfilipebacalas (http://olhares.sapo.pt/jfilipeb)/


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Às Mães da Terra.

  Levanta-se a Mãe no escuro da casa, atravessa as camas, percorre os cantos, evita os ecos dos tectos altos. Parece um gato a Mãe, que mexe o corpo ao jeito da casa, que adapta os seus contornos aos contornos que há nela. O avental cobre um ventre que não cessa de gerar, o lenço atado na cabeça, sem mechas de cabelos soltas que poluam o lar de lajes lavadas ou o pão da manhã. 

  Pé ante pé, sai a Mãe calada, pela porta, junto da qual foi colocada a lenha, o balde de lata para a água, a vassoura, algo que a faça sair e espreitar o campo que se estende, meter as planícies pelos olhos adentro, intuir o dia pelo sabor do primeiro vento. Recolhe-se depois já transformada, é agora formiga operária, de xaile cobrindo os ombros, a vassoura firme entre os dedos como se fora varinha de condão, mudando as vidas dos meninos e dos homens que nunca ouviram histórias de fazer sonhar.
Segura os feixes de paus e quebra-os, pressionando-os com força com os joelhos, junta-os, sopra-lhes o fogo da vida e numa labareda, renasce o lar, começa o dia. Aninha num canto junto ao calor do fogo, a panela de barro com água, a chocolateira para o café. Transforma um pão que é rocha, guardado no fundo da arca, em caldo de leite quente migado para os mais pequenos ou tiborna de vinho e açúcar para sustentar os corpos maiores.


  Dedos com dedos, mãos entrelaçando mãos, bocas que se juntam num beijo onde tudo é possível, vai a Mãe, de coração apertado, despertar os filhinhos que sonham com as bonecas de cartão ou de pano, com as maçãs da Feira de Agosto. As roupas esperam os corpos para ganhar vida, dobradas com minúcia aos pés das camas. O homem levanta-se e dá a sua benção às quatro paredes grossas que escondem tanta miséria, que guardam tantas alegrias.


  Soam os sinos, grita alguém do centro da praça despertando o povo, que anda adormecido. Mal sabe quem grita que há muito tempo que se move a Mãe dentro de casa, como uma brisa matinal, delicadamente polindo, preparando, ajeitando todas as coisas como num movimento harmónico, como uma dança natural entre uma mulher e o seu lar.


  Segue-se uma hora de caminho que às vezes é mais, muito mais, antes que o sol venha cumprimentar os que vivem debaixo dele. Canta a Mãe, faz a viagem mais curta se mantiver os olhos no chão e o coração nos versos que traz por dentro. Trabalha curvada todo o dia, vive curvada. São tantos os pesos que chega a parir curvada nas curvas do tempo e da estrada. Não reclama a Mãe. Não exige. A Mãe dá e neste dar é que recebe, é que se cura quando está doente, é que se levanta quando cai.

  Regressa cansada, quase sem coragem para pensar que precisará da mesma hora e dos mesmos passos para voltar. Carrega com os filhos no colo, junto ao peito, a pé, que na Terra não há outro modo de vencer as distâncias. No fim do dia, dói-lhe mais ver a chuva entrar pela manta do menino ou o seu choro da fome que não acaba, do que as pernas ou os braços, que afinal de contas, não são mais do que instrumentos de recolha dos seus junto de si. Quando chega, a Mãe ainda lava, limpa, cozinha, arruma, remenda, borda, enche a casa com as suas histórias e com a suas canções de embalar.

  A Mãe da Terra cheira a alecrim, a rosmaninho, cheira à terra seca e quente, fumegante após as primeiras chuvas. Cheira a pão cozido no forno, cheira a mel, a azeite e a canela. A Mãe é da Terra negra e é negra como ela num luto que não acaba porque na Terra todos somos parentes. A Mãe da Terra sabe a corpo lavado com água do poço e sabão azul, sabe ao vento frio que ajuda a secar e a corar os lençóis brancos lavados no ribeiro. A Mãe é parte da Terra, do seu ventre em chamas vermelhas, foram paridos os homens que caminharam sobre ela. Da sua boca saíram os beijos que antecederam todas as guerras e as longas partidas.

  E quando tudo acaba, é aos braços dela que voltamos, num embalo eterno de quem cumpriu o seu dever para com a Terra.














quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Das dores se fazem caminhos.

  Os passos que moem a terra, o restolho, a lama, são passos cadenciados, cansados, pesados. São parte do caminho, são o som da estrada. Por cada passo marchado, na rota de uma jornada longa, se ganha mais um troço de chão, se desvanece mais um fôlego dos homens da Terra. Sobem, descem, os pés batem firmes na firmeza do solo. A estrada é a única vítima dos acessos de raiva destes pés castigados, cobertos com botas de couro. Revestimento duro para a dureza de uma vida que não o é. Que não será mais do que o acumular de horas nos caminhos secos ou lamacentos que percorrem os campos e que dispersam os da Terra por todos os lugares onde o trabalho é rei. São botas ou cascos dos que não vendo, não sabem e a quem nem é destinado o desmerecimento concedido às bestas. 


  Choram os homens e as mulheres, os machos e as fêmeas, de negro como corvos salpicando os campos, vão andando e cantando as dores de não ser. Saem em bando antes do sol rasgar o céu e começar a arder ou com a água a escorrer pelo cachaço, incessante, sem tréguas ou piedade. Reúnem-se em praças, nos largos, novos e velhos, todos hão-de servir para o trabalho que nunca é emprego.Carregam os sacos, as trouxas e só conhecem verbos de obedecer. Revoltam-se apenas com as pedras do caminho, choram a fome com lágrimas que se misturam com a chuva ou que evaporam com o calor. Avançam, determinados, vencendo as distâncias, as lonjuras de que é feita a Terra e sentindo secretamente e a medo, nesta vitória, uma porta aberta para muitas outras que sabem- mas não dizem- que hão-de vir.
  Doem as pernas, postas ao serviço dos patrões também; doem as barrigas que reclamam, mais do que os homens, da mediocridade do que recebem para em troca, manterem o resto do corpo de pé; doem corações de amores humanos, de pais de filhinhos à chuva, de amores que não se cumprem senão nos intervalos da estrada. 
   E no entanto, canta-se. Canta-se tudo o que dói. Cantam-se os dias que parecem e não são todos iguais. Canta-se a tristeza de não se saber mais. Canta-se também a alegria de se ser da Terra, de pertencer a ela, de fecundar caminhos que pareciam inférteis. Cantam-se os cheiros da lareira apagada, a cinza tantas vezes lavada e reposta naquele lugar de sempre. Canta-se o sabor das beldroegas, dos espigos, da salsa, de um qualquer vestígio de sabor que trespasse o seco árido do chão e se converta em ceia sagrada noite após noite.
  Prende-se o cante à Terra, as botas e os pés aos caminhos e ainda que passem anos, só muda a cara das gentes. Para muitos, ir e vir nos caminhos longos, é parte da jorna, que é parte da vida. E a vida canta-se, ainda que se chore.