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sexta-feira, 18 de julho de 2014

Sementes da Terra


"Coração é terra onde ninguém vê."
                   Cora Coralina


  Colher é um acto de Amor. Semear ou plantar foram à sorte: soprou-se para a mão, benzeu-se o saco das sementes ou a varinha de cana com o rebento e esperou-se que tudo corresse pelo melhor, aguardando que a Natureza tivesse vontade de gerar, de se sintonizar com o Homem para ver crescer a Vida. Mas colher...oh colher! Colocar as mãos em concha, tocar ao de leve com os dedos enrugados nas primeiras folhas lisas ou nos frutos doces, redondos, plenos de si mesmos, é por si só um milagre de ressurreição. Enterra-se a vida sob o solo árido para que ela volte a respirar sobre ele, com mais vigor, mais força ainda do que a imagináramos contida no círculo de uma semente.

  Colhe-se com Amor e ama-se o que se colhe, chame-se trigo, melão ou feijão meloal; batata, cebola, tomate maduro ou até beldroegas. A tudo se dá forma, se dignifica com mil cuidados que vão da delicadeza da mão de quem os toca a vez primeira debaixo do sol quente, até que borbulhe em panela de barro ou de ferro pesado num calor que é mais brasido, dos fogões com ventre de lenha ou no borralho da chaminé.

  Todo o processo é pretexto para renovar o que se sabe, fazer de novo o que já é hábito e sentir o (re)conforto de voltar ao mesmo lugar, de sentir o mesmo toque, sabor, odor que o corpo já tão bem conhece. Azeitona, uva, bolota. Os frutos da miséria que regressam à casa dos sentidos, são para os da Terra como marcas, tatuagens, imagens de filhos em retratos animados de cor e cheiro.

  O esqueleto sabe as voltas do cajado, moldou-se ao movimento da foice, contorna os limites do panal e debaixo dos panos escuros, chapéus de palha, faz correr rios de suor por entre as curvas da pele. Trabalha como quem dança, com passos e gestos precisos, de quem já o faz há mais tempo do que o que se recorda, para num momento de êxtase, se dobrar, agachado ou de joelhos no chão, a ver despontar um raio de luz sob a forma de árvore, planta, esperança.

  A Terra move-se continuamente, pulsa, o seu centro lateja, rompem-se os torrões secos , voltam a desbravar-se caminhos velhos e reconstrói-se o que já existe. Faz-se mais e melhor, usam-se os braços, repousam flores, cabeças pequenas em regaços. E no fim, quando o dia acaba, o sol se põe em ocasos roxos e os passos ainda são muitos nas terras da Terra até que se aviste o fio fino de fumo da chaminé caiada, os olhos semicerram-se, o nariz e a boca abrem-se levemente para inspirar os aromas que o vento traz: uma sopa quente, a terra molhada, o ar seco, a água que corre na ribeira, cheia pela chuva incansável do Inverno ou por algum milagroso aguaceiro de Verão.

  Para os de cá, o Amor é isto: é imensidão, é vasto, é planície. E no entanto cabe no espaço oco entre duas mãos que se juntam para colher a primeira flor, o primeiro fruto que nasce da Terra.

                                     


quinta-feira, 5 de junho de 2014

A Terra toda numa gota de suor.

«Um dia escrevi que tudo é autobiografia, que a vida de cada um de nós a estamos contando em tudo quanto fazemos e dizemos, nos gestos, na maneira como nos sentamos, como andamos e olhamos, como viramos a cabeça ou apanhamos um objecto do chão.» (...)


                                                                      José Saramago, In Diário de Notícias, 1998-10-09

  Uma gota de suor, transparente, salgada, cai da nuca em viagem acidentada pelo pescoço e ao longo da linha da coluna. O vento seco com aroma de deserto, que faz os trigais em pó e escurece o chão, cola também o luto à pele e faz refrescar, na sombra dos panos, o corpo cansado, amolecido. Toca um dedo, dois, a mão toda na testa suada, no cabo da enxada. Alternando entre uma e outro, o dia se vai, descendo devagar, aliviando o brasido, entrando na noite ao som dos ralos escondidos por entre os ramos, restolho e raízes largas. Escavam-se covas, pequenos cofres naturais para guardar os pertences que não pertencem a ninguém, ou que são de todos os da Terra: um queijo, chouriças e morcelas, quando as há e água sempre fresca na cantarinha de barro. 

 As paisagens que mudam como o dobrar das estações do ano, dão à terra enfeites renovados, acessórios novos, numa moda que parece imutável de já tão conhecida: há os panais fazendo saia por baixo das oliveiras umas vezes; outras em que os sobreiros vestem de tinta branca para não quedarem desnudados mais um ano, até que lhes renasça a pele. Na refrega dos últimos calores, as videiras que antes eram cheias, fartos corredores de verde a atravessar a planície, despem-se por sua vez, exibem os seus ramos raquíticos, despojados de fruto, num eterno abraço umas das outras. Antes disso, já tremeu a seara, à vista dos da Terra, que só conhecem as distâncias pelos nomes dos campanários, dos montes e da disposição dos rolos de palha que ocasionalmente os polvilham. As papoilas de olhos negros profundos, coroados de vermelho-paixão,espreitam por todo o lado nessa época. Saem de casa os da Terra, todos os anos, todos os dias à mesma hora para encontrar à sua frente uma paisagem sempre diferente, desembocando graciosamente, rente às suas paredes brancas.

  Reconhecem-se os forasteiros pelo tom monocórdico que assumem ao falar, pela indiferença com que afirmam em boquinhas meio cerradas e por cima dos ombros: "isto é tudo sempre igual". A Terra com esses não fala. Não tem com eles conversas de Amor trazidas no Suão, que se ajeita por dentro das roupas, junto aos corpos, trazendo em si ainda, memórias de uma areia longínqua. Não. Para os que não são da Terra, ou das terras da Terra, aquela não se abre, qual fêmea decidida, segura dos seus deleites e espectáculos de cor e cheiros. 

 Para os que a acham monótona, sem graça, parada, a Terra faz-se imóvel, que é isso que eles querem que seja. Ou é ela pois, que ciosa dos seus segredos, escolhe pelos dedos os que podem ser seus filhos, seus maridos, seus amantes, depósito inabalável do que mais ninguém sabe. E os da Terra aprendem a ouvir, escutando. Sabem fazê-lo desde muito cedo, antes mesmo que lhes invada a retina pela primeira vez, a luz brilhante, reflexo do solo em ondas de uma água que não há, que por aqui nunca houve.

  E os homens não chegam à Terra senão para habitarem nela. São eles os braços da Terra, as pernas que a levam por todo o lado até onde a voz, o vento e o eco já não alcançam. As mulheres carregam a Terra no ventre, geram-na e parem-na vezes sem conta e contam aos delas as histórias de outros que andaram por cá. Vive então para além dos dias, chega a distâncias que desafiam os recursos do Homem; viaja em pequeníssimos registos celulares, em impulsos de vida, uma memória vaga de calor ou geada no coração de alguém. 

  A Terra faz-se lembrada nas gotas de suor que transportamos no dorso, no cheiro do pão cozido que faz inundar os olhos de lágrimas felizes e nos borralhos dos lumes há muito apagados. Porque para os da Terra, não importa para onde vamos. Só nos importa saber de onde viemos.






quinta-feira, 17 de abril de 2014

A Rita da Terra

  A Rita da Terra era uma cara bonita de se ver. Quando se ria- e ria-se muito a Rita- escancarava a boca toda, muito, muito. Rosto largo e claro, a brilhar do vermelho das queimaduras solares ou do reflexo das papoilas no olhar, fazia-se ainda mais linda quando se ria. Os gestos cuidados, os passos delicados da menina mulher não abriam pistas que levassem a descobrir aquela gargalhada que soava para lá deste, daquele, de todos os montes em volta da Terra, sempre que surgia de repente, ribombante como uma trovoada seca de Verão. A Terra enchia-se de Rita quando a Rita ria. 

  Aos doze, varejava azeitonas, que a escola foi feita para os doutores e para entreter as meninas de famílias fartas, em lições de uma economia doméstica que nunca viriam a conhecer. Aos quatorze meteu os pés numas botas de couro escuro e estas ao caminho e viu-se arrastada pelas enchentes dos da Terra que corriam atrás do trabalho, para aonde quer que ele fugisse. No caminho para lá e para cá, ao som dos tacões no solo rijo, da chuva nas lonas que tapavam as carroças quando as labutas eram de longe, cantava alto e rematava  os estribilhos com aquele rir honesto e grande, tirado ao peito, arrancado do ventre. Aos dezasseis era uma mulher, caiava as paredes que de tão alvas já se confundiam com o brilho cegante dos dias de calma. Antes de raiar o astro na linha tremeluzente do horizonte, já cheirava a sabão na soleira da porta da casa da Rita. Tudo resplandecia: a luz e o reflexo do mundo em cada gota de água e a vida pela frente na fileira de dentes certinhos, brancos como tudo na Terra, repousando no rosto da Rita.

  Era ela quem as movia a todas: à Maria Ana, à Antónia, à Josefa, à Conceição, fazia-as sair da cama de um pulo, para encher os bancos de uma missa a que ninguém queria assistir, só para se poderem trocar olhares, murmurar recados por debaixo das mantilhas- num segundo fugaz- com os rapazes que de um domingo para outro, se fizeram homens, capazes de tomarem uma mulher nos braços e fazê-la sua. A Rita punha-se distraída, não eram para ela esses preparos. Tinha sete irmãos todos pequenos, para seus filhos pouco faltava. Desatinava o grupo, provocando a risota, as bochechas a corar e uma ou outra mais casta ou de mãe mais irascível a afastar-se, lesta, pela calçada da igreja afora. A Rita era uma canção antiga que depois de tantos anos, tantas lágrimas, os muitos filhos não paridos mas criados, fruto dos seus vaticínios de juventude, ainda dizia os mesmos versos, ainda "cantava alegremente a Primavera" tal qual os rouxinóis e os pardais.


  A sua mão amorosa- mais que condescendente- passou por cima de muitas cabeças travessas e atravessadas. Ela sabia do que falava quando dizia que todo o mundo é uma aldeia e que não há nada para saber para além dos limites dela, que a vida toda se vê no pôr do sol sobre as searas ou no cantar dos ralos à noite. A Rita que ria nas cartadas aos serões ou à chegada das cegonhas, de asas largas, pousando na boca da chaminé, foi-se aguentando com a cara bonita, sulcada de pequenas estradas pelos anos. E quando as pernas decidiram não mais percorrer os trilhos da Terra, de peito aberto e sorriso profundo, procurou a sombra da mesma soleira de décadas, à porta da casa branca de seus pais, para encostar o banco de palhinhas. Sentava-se aí, de olhos semicerrados a ouvir os gaiatos a brincar ao avião, às pedrinhas, à apanhada, a tudo e a nada. 

  Embalava nos braços os meninos de todas as mães que já não os podiam calar, num ondear eterno e generoso de quem nunca gerando de si, por isso se desdobrava em muitos, em todos. E quando o dia acabava, o céu roxo a pôr auréola de tranquilidade numa hora em que tudo encaixou e a Terra girou no movimento esperado, a Rita abria a boca e soltava a sua gargalhada de fêmea satisfeita, de mulher completa e recolhia-se ao lar. 

  Não se sabe bem se chegou a fazer um esgar ou se se contorceu o rosto, ou se pelo contrário, se manteve impávida na hora do abandono. Encontrou-a uma sobrinha: a cabeça pendendo para a esquerda, um fiozinho de lágrimas quase imperceptível correndo-lhe dos olhos e a boca vazia de dentes, desenhando a linha enorme do sorriso (ou teria sido do riso?) franco, de nascente a poente. No entanto, o que contam na Terra, homens e mulheres feitos, é que a gargalhada da Rita se ouviu nessa hora pela última vez com uma força que não se lhe conhecia. Rasgando o céu azul, atravessando-se pelo meio do bando de pássaros migratórios e por cima do telhado raso das casas, foi pousar numa azinheira, na orla de uma charneca lá longe, onde o eco acaba. Onde descansam os que não tendo mais jornas que vencer, se permitem descansar numa qualquer dobra do vento, num qualquer sopro de vida na Terra.


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quinta-feira, 20 de março de 2014

A gosto na Terra

  Agosto, como se sabe, cheira a maçãs. Não é de menosprezar no entanto o aroma doce e o gosto quase a mel, dos melões maduros, a casar bem com o pão, juntos a comporem o todo de muitas refeições estivais. Piqueniques sim, mas não na relva. Por vezes na eira, entre pilhas de cereal, ladeados de tábuas e telhas onde secam figos e uvas, frutos a fazerem-se passinhas que irão animar os Natais que hão-de vir. Outras vezes, as mais das vezes, nas soleiras das portas, jantando fora ao estilo dos da Terra.

  Em Agosto há Nossa Senhora, mãe dos que ficam e dos que partindo, regressam ao seio dela para a festa todos os anos prometida. Em Agosto há massa frita cujo cheiro no ar se entranha nas narinas e nas paredes das casas em volta, chamando os de dentro em pungente sedução; o trabalho abranda; o sol amolece e os dias prolongam-se. É o mês das penitências e redenções, mês de Maria e das Marias que por cá são mais do que é possível contar.
  Agosto cheira a velas derretendo, se não com a chama viva, com o calor indolente. Cheira a incensos nos altares em abóbadas sagradas onde todos os segredos ecoam. Num dia que são os dias todos, no ar, cá fora, rebentam foguetes, caem lágrimas de pólvora e fumo, espalham-se as canas nos campos, a servir de jogo improvisado para os gaiatos que hoje podem sê-lo, sem mais delongas.
  Os homens saem à frente, aos primeiros gemidos de uma concertina ou momentos antes do primeiro golpe da baqueta na pele do tambor ou do bombo. Seguram os andores em respeitoso silêncio. É na dianteira das procissões que os rapazes se transformam em homens, os homens em santos, os fardos da vida em padiolas rendilhadas e com perfume de rosas.
  Saem as mulheres, de mantilhas cobrindo-lhes o rosto, os ombros; as saias tapando as canelas e deixando cuidadosamente os pés descalços à vista clara de quem passa e de quem fica. Os pés fazem o seu próprio desfile de dores, exibem orgulhosos, os cortes profundos, os calos e as feridas das suas donas para quem este caminho não é sequer uma pequena parte de outras procissões que são diárias, de jornas contínuas de sacríficio.
  Meninos e meninas vestem de branco, confundem-se em género debaixo das túnicas compridas salpicadas de cera barata dos círios, reciclados de outros anos. Pequenos reis e rainhas, anjos simulados de coroas leves, halos de luz. Pequena mostra de glória para quem nunca tem rosto, senão hoje.
  Toca a fanfarra da Terra ou de outra que lhe seja vizinha, que às vezes a pequenez do território não justifica tal extravagância. Soam notas dispersas no ar. Ecoam nos campos, áridos e envoltos em poeira de tons amarelados onde só se divisam as pontas das espigas nos trigais, indicando o lugar do Céu no qual poucos cá na Terra, querem crer. O ar está parado, o horizonte treme num calor nervoso, tenso, que às vezes faz estalar trovões lá longe, sem que faça chover, como chicotadas no dorso da Terra.
  Na calidez da tarde, ressoam os cânticos das mulheres, os coros das crianças de vozes fininhas, inacabadas e um ou outro homem a tirar primeira e a dar o mote. Às vezes há um padre que reza em voz alta, uma igreja para onde dirigir os passos, mas essas não são condições essenciais para a devoção dos da Terra. O Amor basta-lhes. O Amor que é o cheiro dos melões a amadurecer debaixo das chaminés apagadas; o odor da massa frita com polvilho de açúcar e canela. O Amor que é o silêncio absoluto, o segredo sublime que reside no meio do vazio e das lonjuras em que nada interfere na comunicação dos da Terra com o seu Deus. O Amor que é o de todas as Marias, as Senhoras Nossas das Dores, do Leite, da Boa Viagem, das Agonias, e que não são mais do que o rosto das mulheres que a personificam debaixo deste sol.
  Agosto rima com Amor cá na Terra. De uma maneira ou de outra. Faz-se para que perdure nos Invernos em que ninguém quer pensar até que cheguem. Agosto é o Ano Todo. Na memória dos regressos e dos cheiros. Na permanência desse Amor inspirador de mães para filhas e de homens para meninos. Vive no restolho, no chão difícil, no cantar das ribeiras e no ir e vir da roupa às pedras; na voz do mestre escola a ensinar ladainhas que se repetem mais por jeito de obedecer do que de saber.
  Em Agosto tudo dobra. A vida que parou e estagnou, expectante, esperando a época dos trabalhos, solta os seis sentidos em Agosto. E isto basta aos nossos para fechar um ciclo, para saber que a estrada se faz e que a Terra gira. Sempre que há sol, sempre que ele queima, volta A gosto.












segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Da Terra e da Vida.

  A terra dá frutos há mais tempo do que o que lembra à Terra. Dos secos torrões do chão, separados em milhões pelas memórias da chuva, já se fizeram pães e homens suficientes para povoar a terra inteira. Subsiste a vida quando tudo parece ter partido e mesmo quando dela não se avista nenhum sinal. Rebenta pela chão, discreta, uma silarca. Cai numa fenda rasteira uma azeitona esquecida no ramo já fraco de uma oliveira mais velha que a própria Terra. Soam ao longe as corujas, as pegas, nos anoiteceres roxos, enlutados, dos homens que já não ocupam espaço na paisagem que resta. 

  Quanta vida já passou no húmus revolto, nos passos do caminho, sem que hoje haja marca do que a história pareceu fazer passar ao de leve. Porque pouco importam a tua e a minha estória no globo terrestre se o que fica são as imagens desfocadas nos olhos dos que partiram.
  Ninguém se lembra da seara loira cheirando a seco que ali houve sempre, ou das rosas plantadas nos extremos da vinha, primeiras vítimas dos muitos surtos de doenças que não matam os homens mas que os arruinam. Já não se fala- porque já esqueceu a todos- das campanhas de cereal em que voavam as palhas por cima das cabaças tapadas e em que o cenário dos dias se desenrola em terras longe da Terra, debaixo das tendas improvisadas, corpos marcados pelas rugas duras do chão.
  Sobejam dias entre a época dos bailes na eira pelo São João e o agora em que nada se espraia para lá do olhar afogado de lágrimas. As casas ficaram vazias, as paredes um tanto mais frias  e não há fogo de azinho a inflamar os corações dos de casa. São muitos os que fazem falta em redor deste lume. Choram as velhas, por debaixo dos lenços. Não têm maridos, os filhos criados ao peito, hoje esgotado, não aparecem senão quando elas morrem e a vida vai adormecendo assim a pouco e pouco, nos ventos gelados de Janeiro.
  Não lembra talvez à Terra, a luz do luar a banhar a santíssima trindade em que este mundo costumava assentar: o Céu, em abóbada - como os tectos - por cima do Homem, que estendia os braços para ele em adoração, ou para baixo, para a o Chão, em lavouras que não pareciam acabar. Já não espreitam pelos postigos essas velhas que foram ficando. Reúnem-se às vezes em roda, espantando o sossego indesejado, no largo onde antes se ouvia música e onde se viam brincar as crianças,ensaiando namoros de gente graúda.
  Os homens já não estão por perto. Não resistiram aos ecos da solidão pelas planícies onde antes eram fundamentais. Porque para os da Terra, não é o trabalho que mata os homens, é o vazio dele, é sentir que já não são precisos no equilíbrio do ecossistema. E eles não sabem nada disto porque só sentiram um cansaço profundo que os fez deixar cerrar as pálpebras e regressar ao pó que os viu nascer.
  Hoje, agarro as árvores e piso o chão da Terra, cavando histórias de caneta empunhada, parco substituto da enxada que furava o chão, fazendo entrar e sair vida num movimento perpétuo. Fecho os olhos e  ouço os passos dos que aqui caminharam antes de mim. Estou protegida por uma multidão de vultos negros que aguarda o meu regresso. Aspiro o ar frio que se atira em cheio aos meus pulmões e sinto que cheguei, que não há mais o que procurar. Meu papel é a minha Terra e este começo está todo em branco.









quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Uma noiva da Terra


 Segue a noivinha pelas ruas da Terra, de branco vestida, rendas e laços a apertarem-lhe um corpo que não conhece o sol. Calça sapatos delicados, novidade digna deste dia só e pisa as ruas de terra batida, de cantos irregulares, equilibrando-se precariamente no seu novo estatuto. Ao avançar, agarra com força o molho de papoilas, malvas, chagas-de-cristo e outras boninas que lhe perfuma o colo desde a manhã. Aperta-o contra si própria como mezinha caseira ou rasto de superstição herdado nem sabe de quem. Criança na manhã de ontem e hoje senhora da sua casa, que é para isso que seu pai a criou, se matou a trabalhar nas terras da Terra em dias e noites que não importa lembrar, que hoje é grande a festa.

 Para trás, na poeira do caminho, ficam também as semanas de bolo batido em casa, o pão amassado em série, tarefas das mulheres que entregam a mulher que hoje aqui se constrói. (Por entre conselhos segredados ao ouvido, os risos das que já conhecem os suores e os cheiros da primeira noite do resto da sua vida, a noivinha que ainda é criança vai ouvindo, de olhos no chão e rosto encarnado, sem saber onde encaixar tanto saber novo que vem todo de repente, inundar-lhe o coração de medos. As suas mãos não param para não dar parte de fraca e amassa com força, liberta-se toda dentro da massa do pão. Bate com a colher de pau contra as paredes da tigela de barro e reza por dentro para que o barulho do material tosco no poial se sobreponha ao descompasso do seu peito.)

 Vai pela rua nova a menina-mulher de braço dado com o Pai, com a bênção da Mãe que a beijou e lhe deixou o sinal da cruz na testa antes que a porta batesse. A casa cheira a sabão, as lajes brilham, há bolos de coco, línguas de sogra, rosquinhas, bolos da raspadura e licores de muitas cores em cima da mesa posta para os vizinhos que vieram ver o vestido, beber uma saúde ao novo lar, nascido hoje. Antes de sair, esteve a noivinha sentada numa cadeira de palhinha, cumprimentando os convivas, fingindo-se envergonhada, sabendo que é linda e gozando o momento, que os panos finos que a envolvem hoje, perderão a sua função passada a meia-noite. Tal qual o sapatinho de uma Cinderela de quem ela nunca ouviu falar.

 Por aqui não se fala de fadas nem de bruxas más. São da Terra e do trabalho, as estórias que a noivinha de olhos escuros e pele clara, ouviu contar desde o berço, que nunca teve. Sabe melhor que ninguém que a Terra é todo o mundo e que é aqui que vai desdobrar-se em filhos e em trabalhos. Sabe que as noites serão curtas para acalmar o cansaço que lhe irá paulatinamente, sulcar o rosto. Não sonhará com dias de redenção ou voos milagrosos e se sua Mãe bem a educou, não sonhará de todo, possivelmente. Será mulher forte, empurrará os seus para a frente, parirá e guardará com orgulho as suas cicatrizes por debaixo de mil saias de chita e cambraia.

 E é tudo isto que exibe no peito, onde brilha um alfinete dourado, presente do namorado, do lado do coração. O cortejo da noivinha de pés pequenos invade as ruas como uma maré de frescura e arrasta consigo, pela terra batida, cheiro de cal e sinos de igreja a tocar ao despique, um desejo de vida longa. Que se celebre pois a gaiata de olhos fundos e vontade de aprender que ontem era. Celebre-se hoje a mulher-baluarte que numa passada breve, chegará à sua casa para dela tecer um novo ciclo e embalar no colo o renascer da Terra, nos homens que hão-de vir.

Fotografia de © jfilipebacalas (http://olhares.sapo.pt/jfilipeb)/


sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

As idades da Terra

As idades da Terra não contam das rugas sulcadas no rosto das velhas. Não falam das malas vazias de coisas e de sonhos nos cais de embarque. Os dias que correram na Terra, de terra para terra, não falam dos outros que passam sobre os desenganos de Amor, os vestidos de noiva pendurados nos guarda-fatos eternamente, as solas dos sapatos gastas nos salões de baile da sociedade recreativa, ou sequer do ir e vir pendular dos pés deste ou daquele homem que junto a muitos outros, vai construindo mais um pedaço de estrada. 

Não. A Terra não se compadece de Amores pequenos, paixões exacerbadas, das vistas de uma janela ou do som de um acordeão triste e solitário a cortar o céu da noite. O lento viajar dos ponteiros do relógio a que se chamou vida, deu à Terra as estações, a chuva correndo pelo solo, o barro mole a formar montes, socalcos e obras que não havia. O tempo deu à Terra as fendas por entre as quais nascem bravamente coroas de beldroegas, mimosas e sálvia, salpicos de cor num manto duro e opaco do chão que parecia estéril.
A Terra girou e não saiu do mesmo lugar, mexeu-se para ajeitar os seus contornos, para reescrever a sua história. A Terra que sofreu o impacto de expelir os primeiros homens do seu centro, viu-os espalharem-se como ondas sísmicas por diversos lugares, a fazer crescer a Terra para tantas outras terras, que já nem nomes há que cheguem para designá-las todas. A panelinha de barro onde ferve o feijão-careto com a abóbora, num caldinho que chia junto das brasas, do almoço para o jantar, já alimentou mais bocas do que aquelas que a Terra pariu. O milagre repete-se dia após dia, ano após ano e o fumegar da panela é tão lato, que a Terra chega às montanhas de neve, para lá das cordilheiras, voa e assenta em casas de telhados negros que não sendo da Terra, guardam os filhos dela quais amas zelosas ou anjos em céus distantes.
A idade da Terra é já muita e quem nela e dela vive nada parece querer contar em particular. Só que a Terra está viva e quanto mais a idade estica e a Terra avança, mais esbatidas ficam as histórias das gentes que são sempre anónimas. A Terra é o que é e não parece já lembrar-se dos meninos paridos debaixo das azinheiras em meio da jorna. Ou das canjas de galinha ou galo, sacrificados por hora da quarentena da mãe recente. Ou ainda das fatias paridas, só de pão e de ovo, em honra da que pariu e que deu à Terra mais dois braços para a trabalharem, mais duas pernas para a calcorrearem.
A Terra é grande e não retém nela os versos à desgarrada, subtis namoros dos bailes de fim de ano ou do fim dos trabalhos, dos quais se sai directamente para outros, se tudo correr bem aos que cá vivem. É grande demais a história da Terra. Não pode lembrar-se de todas as cartas de todas as madrinhas de guerra, de todos os meninos que se fizeram homens e velhos ou que não voltaram inteiros dessas guerras que não lhes pertenciam. Não se pode pedir à memória da Terra que guarde todos os dias felizes em que cheira a sabão-macaco e à água fresca lançada na soleira das portas, ou o sabor da massa frita nos dias de Feira ou sequer a cor das fitas dos cabelos das raparigas, debaixo das mantilhas nas missas de tantos e tantos Domingos.
A Terra de tão velha, é hoje uma Terra nova. A música que se dança, é agora outra, são novos também os pés ricamente calçados a bater no chão da praça durante as festas de Verão. A água dos caldos cheira mais vezes a carne e há automóveis nas ruas de pedra da Terra onde os gaiatos cada vez brincam menos. Olhada de longe, a Terra é vasta, é Norte, é Sul e estende-se por todos os cantos onde a vida habita.
No entanto, eu escolho olhar a Terra por dentro, ver o que ela não conta nas idades do tempo que vai passando por ela. Escolho a luz do candeeiro a óleo para ver cada retalho ao pormenor; abro bem as narinas para deixar entrar o cheiro da terra molhada, o fumo que se liberta das paredes húmidas e da roupa de quem passa. Abro o peito e canto aquela canção que ouvi num tempo que já não era o dela; escuto os sons dos ralos e dos rouxinóis que povoam os campos. Caminho devagar, com os calcanhares bem firmados num chão a que quero pertencer, onde quero ganhar raízes profundas para que, como as árvores da minha Terra, saiba procurar a fonte quando tudo parecer secar.









quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Onde vive a Terra.

  Os tectos altos separam o homem do céu. Redesenham os limites do homem, fazem-no crer que de tão altos, não há mais nada para além deles. São abóbadas mas não celestes, são curvas, redondas, a fechar  segredos, a envolver o homem num ventre de pedra de onde ele é gerado todas as manhãs e aonde volta no final de cada dia, fim dos passos no culminar da jorna. São templos, são lugares de adoração de chaminé larga em lugar de altares. Fazem ressoar os gritos mais abafados, explodir em decibéis vergonhosos as vergonhas da intimidade. Do eco dos tectos de pedra e cal das casas surgiram os homens que povoaram a Terra e as muitas terras depois dela. Não mais de taipa e adobe como os primeiros pais da Terra o fariam, mas ainda com o que houver de menos nobre e mais acessível que a terra possa dar. 

  Janelas não são precisas que os da casa guardam-se por dentro e assim no escuro, que é o espaço entre tu e eu, se afasta o brasido que derrete, que coze e desfaz tudo o que fica de fora. É na ausência de janelas que se preserva o calor de um lume que se quer aceso todo o Inverno, a servir de centro do lar, a produzir fumeiro para as parcas carnes que qual morcegos, se penduram sobre ele a fazer sonhar noite após noite, com as horas de festa, com o pingo da carne nas sopas aguadas.
  Da sala se faz cozinha e às vezes ao contrário que os nossos não vêem mal em se sentarem comendo de portas abertas, o pouco que há é o bastante para quem vier de visita, para quem se enfeitiçar dos aromas que vêm de dentro. Na cozinha que é sala- e do que é e não é os de casa não fazem caso- vive a família que é grande como a Terra. Nascem meninos junto do lar quando o que falta são quartos e não os desejos de parir. Amor e pão não se negam a ninguém. Camas chega a haver e às vezes fazem-se quartos, constroem-se guarda-fatos para onde vão os vestidos de noiva ou de festa. Mas isso é depois, muito depois das casas levantadas, tectos erguidos, corações ao alto.
  Quando as há, são de ferro as camas ou num rasgo de sorte, de madeira da boa, investimento futuro ou dote vindo da madrinha num noivado feliz. Cadeirinhas de assento de palha, de madeira tosca com cores alegres que sobrando dos rodapés das casas, enfeitam de flores miúdas o assento humilde. O jardim dos da Terra é a planície, seus quintais são as searas. Lá fora é tudo nosso que quem ama nada possui, ou é dono de todas as coisas, o que é o mesmo no fundo.
  Cheira ao alecrim e à hortelã da ribeira. Há pássaros que não são de gaiola. A vida é grande como a imensidão da Terra e os da casa é nela que habitam.





                                           


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Às Mães da Terra.

  Levanta-se a Mãe no escuro da casa, atravessa as camas, percorre os cantos, evita os ecos dos tectos altos. Parece um gato a Mãe, que mexe o corpo ao jeito da casa, que adapta os seus contornos aos contornos que há nela. O avental cobre um ventre que não cessa de gerar, o lenço atado na cabeça, sem mechas de cabelos soltas que poluam o lar de lajes lavadas ou o pão da manhã. 

  Pé ante pé, sai a Mãe calada, pela porta, junto da qual foi colocada a lenha, o balde de lata para a água, a vassoura, algo que a faça sair e espreitar o campo que se estende, meter as planícies pelos olhos adentro, intuir o dia pelo sabor do primeiro vento. Recolhe-se depois já transformada, é agora formiga operária, de xaile cobrindo os ombros, a vassoura firme entre os dedos como se fora varinha de condão, mudando as vidas dos meninos e dos homens que nunca ouviram histórias de fazer sonhar.
Segura os feixes de paus e quebra-os, pressionando-os com força com os joelhos, junta-os, sopra-lhes o fogo da vida e numa labareda, renasce o lar, começa o dia. Aninha num canto junto ao calor do fogo, a panela de barro com água, a chocolateira para o café. Transforma um pão que é rocha, guardado no fundo da arca, em caldo de leite quente migado para os mais pequenos ou tiborna de vinho e açúcar para sustentar os corpos maiores.


  Dedos com dedos, mãos entrelaçando mãos, bocas que se juntam num beijo onde tudo é possível, vai a Mãe, de coração apertado, despertar os filhinhos que sonham com as bonecas de cartão ou de pano, com as maçãs da Feira de Agosto. As roupas esperam os corpos para ganhar vida, dobradas com minúcia aos pés das camas. O homem levanta-se e dá a sua benção às quatro paredes grossas que escondem tanta miséria, que guardam tantas alegrias.


  Soam os sinos, grita alguém do centro da praça despertando o povo, que anda adormecido. Mal sabe quem grita que há muito tempo que se move a Mãe dentro de casa, como uma brisa matinal, delicadamente polindo, preparando, ajeitando todas as coisas como num movimento harmónico, como uma dança natural entre uma mulher e o seu lar.


  Segue-se uma hora de caminho que às vezes é mais, muito mais, antes que o sol venha cumprimentar os que vivem debaixo dele. Canta a Mãe, faz a viagem mais curta se mantiver os olhos no chão e o coração nos versos que traz por dentro. Trabalha curvada todo o dia, vive curvada. São tantos os pesos que chega a parir curvada nas curvas do tempo e da estrada. Não reclama a Mãe. Não exige. A Mãe dá e neste dar é que recebe, é que se cura quando está doente, é que se levanta quando cai.

  Regressa cansada, quase sem coragem para pensar que precisará da mesma hora e dos mesmos passos para voltar. Carrega com os filhos no colo, junto ao peito, a pé, que na Terra não há outro modo de vencer as distâncias. No fim do dia, dói-lhe mais ver a chuva entrar pela manta do menino ou o seu choro da fome que não acaba, do que as pernas ou os braços, que afinal de contas, não são mais do que instrumentos de recolha dos seus junto de si. Quando chega, a Mãe ainda lava, limpa, cozinha, arruma, remenda, borda, enche a casa com as suas histórias e com a suas canções de embalar.

  A Mãe da Terra cheira a alecrim, a rosmaninho, cheira à terra seca e quente, fumegante após as primeiras chuvas. Cheira a pão cozido no forno, cheira a mel, a azeite e a canela. A Mãe é da Terra negra e é negra como ela num luto que não acaba porque na Terra todos somos parentes. A Mãe da Terra sabe a corpo lavado com água do poço e sabão azul, sabe ao vento frio que ajuda a secar e a corar os lençóis brancos lavados no ribeiro. A Mãe é parte da Terra, do seu ventre em chamas vermelhas, foram paridos os homens que caminharam sobre ela. Da sua boca saíram os beijos que antecederam todas as guerras e as longas partidas.

  E quando tudo acaba, é aos braços dela que voltamos, num embalo eterno de quem cumpriu o seu dever para com a Terra.














quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Das dores se fazem caminhos.

  Os passos que moem a terra, o restolho, a lama, são passos cadenciados, cansados, pesados. São parte do caminho, são o som da estrada. Por cada passo marchado, na rota de uma jornada longa, se ganha mais um troço de chão, se desvanece mais um fôlego dos homens da Terra. Sobem, descem, os pés batem firmes na firmeza do solo. A estrada é a única vítima dos acessos de raiva destes pés castigados, cobertos com botas de couro. Revestimento duro para a dureza de uma vida que não o é. Que não será mais do que o acumular de horas nos caminhos secos ou lamacentos que percorrem os campos e que dispersam os da Terra por todos os lugares onde o trabalho é rei. São botas ou cascos dos que não vendo, não sabem e a quem nem é destinado o desmerecimento concedido às bestas. 


  Choram os homens e as mulheres, os machos e as fêmeas, de negro como corvos salpicando os campos, vão andando e cantando as dores de não ser. Saem em bando antes do sol rasgar o céu e começar a arder ou com a água a escorrer pelo cachaço, incessante, sem tréguas ou piedade. Reúnem-se em praças, nos largos, novos e velhos, todos hão-de servir para o trabalho que nunca é emprego.Carregam os sacos, as trouxas e só conhecem verbos de obedecer. Revoltam-se apenas com as pedras do caminho, choram a fome com lágrimas que se misturam com a chuva ou que evaporam com o calor. Avançam, determinados, vencendo as distâncias, as lonjuras de que é feita a Terra e sentindo secretamente e a medo, nesta vitória, uma porta aberta para muitas outras que sabem- mas não dizem- que hão-de vir.
  Doem as pernas, postas ao serviço dos patrões também; doem as barrigas que reclamam, mais do que os homens, da mediocridade do que recebem para em troca, manterem o resto do corpo de pé; doem corações de amores humanos, de pais de filhinhos à chuva, de amores que não se cumprem senão nos intervalos da estrada. 
   E no entanto, canta-se. Canta-se tudo o que dói. Cantam-se os dias que parecem e não são todos iguais. Canta-se a tristeza de não se saber mais. Canta-se também a alegria de se ser da Terra, de pertencer a ela, de fecundar caminhos que pareciam inférteis. Cantam-se os cheiros da lareira apagada, a cinza tantas vezes lavada e reposta naquele lugar de sempre. Canta-se o sabor das beldroegas, dos espigos, da salsa, de um qualquer vestígio de sabor que trespasse o seco árido do chão e se converta em ceia sagrada noite após noite.
  Prende-se o cante à Terra, as botas e os pés aos caminhos e ainda que passem anos, só muda a cara das gentes. Para muitos, ir e vir nos caminhos longos, é parte da jorna, que é parte da vida. E a vida canta-se, ainda que se chore.





                                                 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O diabo dos bolos

  O diabo entra no corpo da gente de mais de mil maneiras possíveis. Ter o diabo no corpo é pior do que passar-se para o lado dele de vez. Não há forma de saber ou aviso prévio quando o diabo do corpo se põe a jeito de lhe entrar o diabo dentro. E o pior é que quando ele vem e se instala, é já difícil saber o chegou primeiro, se o corpo, se o diabo que entrou nele. E há tantas maneiras de o ter dentro, como se o corpo fora um pomar rico em frutas doces e sumarentas ou um oceano pejadinho de peixe firme e luzidio.

  Com bolos se enganam os tolos. É com bolos também que se enganam os que não se dizem gulosos, os que não podem ou os que não devem. Se são bolos, são doces, aligeiram os reveses dos dias tão amargos. São secos os bolos, são enxutos, ao contrário das lágrimas e do suor que caem por debaixo dos lenços, que escorrem pela aba dos chapéus. São bolos  do que há e do que não há: açúcar, só um nadinha, que as extravagâncias não são para os da terra. Do mel e da canela se faz a boca mais doce e só o limão, azedo e pungente, vem lembrar que não é tudo tão doce como se previa. O azeite faz a ligação do que não parecia alguma vez poder ligar-se.
  Dos dias iguais uns aos outros, estrada acima,montes abaixo, nasce um ou outro que por ser de festa, se permite uma dentada mais doce. E embora a festa não dure sempre, o diabo dos bolos é que abrem o caminho ao diabo para entrar e comer-nos por dentro. E com os bolos vêm os bailes em sociedades de paredes de branco caiadas, de acordeão de som limpinho e sapatos a roçar sapatos, barrigas a encostar a barrigas, num vai e vem infinito de notas de música e promessas sussurradas ao ouvido.
  Com os bolos vem o copo de licor quente, de poejo, de ginja,de tudo, a aguardente (a água ardente), o vinho do Porto de outras paragens é certo, mas que aqui assenta tão bem. Com os bolos vem esta vontade que seja tudo mais doce. Vem a revolta quando não os há, que a vida não se fez só para trabalhar antes mesmo que o sol se levante e continuando muito depois que ele desapareça.
  O diabo dos bolos apetecem sempre, mesmo quando o café se acabou na chocolateira junto ao lar e lá dentro só sobrar o resquício da brasa apagada. Com os bolos entram na gente as ideias que adoçam como o mel mas que trazem nelas um travo a vida real, como o limão. E nascendo e morrendo tantas vezes, os bolos vão deixando as suas migalhas, a vontade de provar mais, o direito de ter melhor.
  Porque tanto bolo se amassou, que no corpo o diabo entrou.









sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O Pão da Terra

  Na minha terra cheira a terra: molhada depois da chuva ou seca a abrir caminhos que não existiam. Na minha terra cheira à palha seca, ao estrume que é morte e vida e tudo de novo. Na minha terra cheira à lareira apagada, a cinza habitando as paredes à sua volta. 

  Nesta terra que é a minha e de quem eu sou no avesso de mim, cheira às boninas do campo, as mimosas, as chagas de cristo, as papoilas em fogo, beijadas pelo sol de Agosto. Na minha terra o cheiro é de gente, de corpos suados, colarinhos sujos, botas enlameadas. Cheira a queijarias e cabras e ovelhas nos quintais.
  Deito-me e acordo na minha terra com o fundamental cheiro do pão. De noite, tapado, abafado em mil panos quase o ouço crescer, fazer-se grande no breu e no silêncio. De manhã desperto com o sopro vital nas narinas vindo desse deus maior que o tempo: o pão que coze e estala e abre fendas no seu rosto perfeito.


  Com o dia a fazer-se pequeno o pão vai operando os seus milagres e multiplica-se para alimentar todas as bocas que se abrem para ele. O pão que é hóstia sagrada e que também se banha despudoradamente em caldos salpicados de ervas cujos nomes se vão perdendo nas idades do mundo. O pão onde se derrama o azeite quente, luxuriante, dando-se ainda por vezes requintes de polvilho de açúcar.


  O pão cheira a pão e só quem sabe o que isto é pode dizer que viveu verdadeiramente. Porque é na lenha do forno, qual útero fértil, que se gera a vida, que se alimenta a Humanidade antes mesmo que ela se lembre.


  A minha terra é célula apenas, de uma vida bem mais complexa. No entanto, para mim, é só dela este cheiro do pão que me acolhe, me mima, me alimenta, muito antes de viajar dentro das minhas entranhas.


  Cheira a filhos paridos com dor, cheira a caminhos longos, a paisagens desoladoras, cheira a ocasos roxos, cheira à pólvora dos foguetes em dia de procissão, cheira a paredes caiadas de branco. cheira a porcos enfrentando o digno destino final sob o fio da faca, cheira a lajes lavadas com água, a dias quentes e a noites geladas.
  Na minha terra, o pão cheira à minha memória e leva-me a ela, onde quer que me encontre.